25 Abr 2019 | domtotal.com

Narrativa indigesta

Documentário '1964 - o Brasil entre armas e livros' joga lenha na fogueira das vaidades ideológicas.

A ditadura abortou lideranças importantes, como o liberal Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara.
A ditadura abortou lideranças importantes, como o liberal Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara. (Divulgação)

Por Jorge Fernando dos Santos

Que o golpe de 1964 foi um dos capítulos mais obscuros da história nacional, ninguém duvida. Há duas narrativas predominantes sobre o tema. A da esquerda, que se diz defensora da democracia e vítima da ditadura; e a da direita, que nega ou simplesmente tenta justificar o golpe.

O documentário “1964 - o Brasil entre armas e livros” joga lenha na fogueira das vaidades ideológicas. Produzido pelo site Brasil Paralelo e impedido de ter exibições públicas, o filme já alcançou 5,6 milhões de acessos desde o dia 2 de abril, quando foi postado no Youtube.

Depois de dois governos do PSDB e três e meio do PT, a versão da esquerda se tornou quase hegemônica. Da mesma forma que a narrativa da direita extremada prevaleceu no período militar, toda uma geração cresceu ouvindo o discurso dos supostos perdedores.

O documentário foi produzido pelos jovens Lucas Ferrugem, Henrique Viana e Felipe Valerim. Ele começa falando sobre a guerra fria e seus reflexos no Brasil. Também discorre sobre o antigo PC do B, satélite da política soviética fundado apenas cincos anos após a Revolução Russa de 1917.

Golpe dentro do golpe

A novidade do filme são os depoimentos de pesquisadores poloneses e tchecos sobre a infiltração de serviços secretos do Leste Europeu na vida brasileira. Historiadores entrevistados reafirmam que o movimento de 1964 foi uma reação ao avanço do comunismo. 

Naquele ano, a polarização política levou o país à beira da guerra civil. Em 2 de abril, dia seguinte à chegada das tropas de Olímpio Mourão Filho ao Rio de Janeiro, o Senado Federal declara vaga a Presidência da República. Mesmo com o apoio do 3º Exército, João Goulart deixa o território nacional.

O presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, toma posse na Presidência, mas, em 11 de abril, o Congresso aprova o “subornista” Castelo Branco para cumprir o restante do mandato. Banqueiros, fazendeiros, empresários, OAB, setores da mídia e da Igreja aplaudem e apoiam o golpe civil-militar.

O marechal deveria presidir o país até as eleições, mas a ala dura das Forças Armadas impõe seu colega Costa e Silva para sucedê-lo. O episódio ficará conhecido como o golpe dentro do golpe. Em dezembro de 1968, o ditador baixa o AI-5 e o que era amargo azeda de vez.

Tecnicismo e censura

“1964” denuncia a ação da guerrilha, que lutava não pela democracia, mas para implantar a ditadura do proletariado. Fernando Gabeira, que participou do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, confirma a tese. A maioria da população apoiou o regime e aplaudiu o milagre econômico.

O documentário não poupa os militares, criticando-os pelo tecnicismo, pela censura e falta de visão política. No entanto, dá a entender que a tortura foi um ato de tresloucados e não uma política do estado opressor. Mentira! Torturadores e guardinhas de esquina cumpriam ordens superiores, sim.

A ditadura abortou lideranças importantes, como o liberal Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara que poderia fazer frente à esquerda. Mas o pior erro teria sido a miopia diante do gramscismo, que propõe a revolução cultural – já que a luta operária e a ação armada não tomaram o poder.

No seu depoimento, Olavo de Carvalho afirma que os EUA não participaram do golpe. No entanto, como ignorar relatórios da CIA e a operação Brother Sam? Os sermões do padre Patrick Peyton, mentor da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ou as aulas de tortura de Dan Mitrione? Na guerra fria valia de tudo, inclusive a mentira contada pelos dois lados.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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