02 Mai 2019 | domtotal.com

Politicamente hipócrita

Na semana passada, a direção de uma escola de Barcelona, na Espanha, resolveu banir da biblioteca clássicos da literatura infantil.

Passados todos esses anos, as patrulhas só fizeram aumentar, principalmente na mídia e nos meios artísticos e universitários.
Passados todos esses anos, as patrulhas só fizeram aumentar, principalmente na mídia e nos meios artísticos e universitários. (Divulgação / Internet)

Por Jorge Fernando dos Santos

Surgido nos Estados Unidos, na esteira da chamada New Left – movimento político forjado na Escola de Frankfurt nos idos de 1960 –, o “politicamente correto” tem sido uma panaceia cuja finalidade seria combater preconceitos de toda ordem.

Curiosamente, no final daquela década, Caetano Veloso reclamava das patrulhas ideológicas, que cobravam de figuras públicas o engajamento nas causas marxistas. Ironicamente, ele cantava “É proibido proibir”, inspirado no lema estudantil parisiense já influenciado pela New Left.

Passados todos esses anos, as patrulhas só fizeram aumentar, principalmente na mídia e nos meios artísticos e universitários. Donos da verdade, seus adeptos costumam praticar uma forma de censura pior que aquela exercida pelos regimes autoritários.

Pior por ser hipócrita! Um modo sutil de inibir a liberdade de pensamento e praticar o revisionismo histórico. Foi dessa forma que tentaram censurar Monteiro Lobato, acusando-o de racismo devido ao comportamento malcriado de sua personagem Emília, numa briga com Tia Nastácia.

Essa mesma gente, que pretende salvar o mundo mudando palavras e atropelando a tradição, esconde o lixo debaixo do tapete ao cultivar a ilusão de que basta suprimir expressões e obras artísticas para transformar a realidade à nossa volta.

Palavras são evitadas ou substituídas por sinônimos menos explícitos. Em vez de negro, afrodescendente; em vez de favela, aglomerado; em vez de velho, idoso. No entanto, afrodescendentes continuam discriminados. Aglomerados permanecem violentos e miseráveis. Idosos são tratados com desdém numa sociedade hedonista, que vive na ilusão da eterna juventude.  

Livros indesejáveis

Na semana passada, a direção de uma escola de Barcelona, na Espanha, resolveu banir da biblioteca clássicos da literatura infantil, entre eles “Chapeuzinho Vermelho” e “A bela adormecida”. A justificativa é que esses livros associam aos homens a valentia e, às mulheres, a docilidade.

Mas qual é o problema de a mulher ser dócil e o homem, valente? Docilidade não significa submissão. Ser valente nada tem nada a ver com brutalidade ou violência. Nenhuma dessas histórias ensina que a mulher não possa ser valente e o homem, dócil ou delicado.

E cabe aqui um parêntese para lembrar que, por motivos religiosos, escolas evangélicas não adotam livros com personagens folclóricas ou mitológicas. Tal absurdo é o mesmo de não se admitirem fábulas que, de alguma forma, possam contrariar o ideário do “politicamente correto”.

Na maioria dos casos, os adeptos desse tipo de pensamento não consideram que autores, obras e conceitos devam ser analisados em função da época a que pertencem. Ao tentar proibi-los, corre-se o risco de perder o referencial histórico. Pior que isso, o mundo vai perdendo a graça, já que os humoristas são o alvo preferencial dos novos censores.

No Brasil, muitos evitam músicas como “O teu cabelo não nega”, de Lamartine Babo – cujo sobrinho Sargentelli deve ser execrado por conta de suas famosas mulatas. Alguns implicam com Noel Rosa, autor de um samba cuja letra faz referência a um judeu usurário. Será que esses autores devem ser banidos por retratar valores do tempo em que viveram?

Convém lembrar que as feministas não alcançaram a ironia de Chico Buarque nas canções “Mulheres de Atenas” e “Geni e o Zepelim”. Desse modo, não é de duvidar que um dia queiram proibir obras como “O mulato”, de Aluísio de Azevedo; “O bom crioulo”, de Adolfo Caminha; “Gabriela”, de Jorge Amado; ou “Bonitinha, mas ordinária”, de Nelson Rodrigues.

A própria Bíblia, pilar da moral judaico-cristã, corre sérios riscos num futuro improvável. Até porque o objetivo da New Left é abalar os alicerces da cultura ocidental em nome da revolução. E essa revolução, como quase todas as outras, começa queimando livros para depois queimar autores.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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