04 Mai 2019 | domtotal.com

Redescobrir a sua fonte interior

Ás vezes não nos sentimos como um terreno, no qual a fonte interior que nos abastecia parece ter para sempre secado?

Será que a sociedade atual não vive também essa realidade na qual todo amor é abolido e chacinado?
Será que a sociedade atual não vive também essa realidade na qual todo amor é abolido e chacinado? (Pixabay)

Por Marcelo Barros

Há certo tempo, quem andava pelas estradas de terra e trilhas do interior de Goiás, aqui e ali descobria à margem do caminho uma placa, às vezes, escrita quase improvisadamente: “Aqui se redescobriu e se salvou uma nascente d’água que se tinha perdido”. Um amigo que viu muitos desses letreiros quis saber dos cuidadores/as das nascentes como podiam saber que tal terreno baldio, ou sítio atualmente seco, continha escondido debaixo da terra ou do areal uma fonte d’água. Também queria saber o que faziam para ela brotar.

As explicações foram diversas. Desde informações de antigos moradores até técnicas ancestrais, como radiestesia, e outras novas, como pequenas perfurações e limpezas do terreno até chegar ao molhado e, aí, ajudar à antiga fonte novamente aparecer e renascer.  
Essa experiência suscita em nós a pergunta: E nós, eu e você, às vezes, não nos sentimos como um terreno, no qual a fonte interior que nos abastecia parece ter para sempre secado? Como fazê-la voltar a surgir do mais interior do nosso ser para irrigar as securas de nossas vidas e com águas puras e cristalinas dessedentar nossa sede mais íntima e profunda?

Na Alemanha nazista, em 1943, Etty Hillesun era uma jovem judia de 28 anos que, em um campo de concentração, tinha sido condenada à morte e esperava a sua execução. Em meio às barbaridades que sofreu e via outros sofrerem, ela escrevia um diário que escapou da censura dos seus algozes. Nesse diário, ela nos surpreende por sua atitude positiva de esperança e amor. No campo de concentração, condenada à morte, ela escreveu em seu diário: “Dentro de mim, há um poço muito profundo. Nem consigo ver o seu fundo. Às vezes, me parece coberto de pedras e lixo. E então, para mim, Deus está sepultado. Em alguns momentos, consigo desenterra-lo e posso até ajudar outras pessoas a desenterrá-lo em seus corações. Percebo que em uma situação como essa, ó Deus, tu não podes nos ajudar. Mas, nós podemos sim fazer muito por ti. Podemos ajudar-te a não te deixar sepultado em nós e a ser testemunhas do teu amor em uma realidade na qual todo amor é abolido e chacinado”.

Será que essas palavras não caberiam hoje para muitos de nós? Será que a sociedade atual não vive também essa realidade na qual todo amor é abolido e chacinado? Não temos, cada um dentro de si mesmo um poço profundo, coberto de pedras e de todo tipo de lixo? 

Para os cristãos que nesses 50 dias celebram a Páscoa, a fé na ressurreição de Jesus nos faz descobrir que, mesmo se a superfície parece árida como o sertão nordestino em tempos de seca, no mais profundo do nosso ser há uma fonte escondida, na qual a água cristalina do Espírito só espera nossa disposição para libertá-la. Então, ela jorrará como torrente de vida a renovar nossa esperança e encher de doçura nossa aridez.

Quem lê o diário de Etty Hillesun poderá constatar como ela tinha clareza de posições contra os nazistas, denunciava a opressão, sentia a indignação profética contra o mal e o combatia, mas não deixava que o ódio e o desejo de vingança a dominassem. Ao saber do extermínio de sua família, ela escreveu: “Nessas circunstâncias tão terríveis, a minha contribuição para o meu povo é que não podemos abrir mão da misericórdia. Precisamos nos tornar incapazes de odiar, aconteça o que acontecer conosco. Essa será nossa única força”.  

Esse tipo de resistência interior e energia espiritual não se improvisa. Geralmente, as tradições insistem que, para realizar essa peregrinação interior para a fonte de águas vivas que é o Espírito Divino presente em nosso próprio coração, é preciso que a pessoa simplifique a sua vida, busque a sobriedade, ame o silêncio e, principalmente, aprofunde a sua capacidade de amar. O próprio Jesus, no Evangelho, propôs, como condição para o discipulado, o despojamento pessoal e a disposição de partilhar com o outro tudo o que se tem e o que se vive.

A espiritualidade bíblica insiste que o cuidado com a interioridade não pode isolar a pessoa em si mesma. Ao contrário, é para torná-la mais capaz de sair de si e viver a comunhão com os outros. Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano, mártir do nazismo, dizia: “Deus está em mim para você e em você, para mim. Ele está em mim, mas eu o encontro melhor em você e, então, você o revela presente em mim, assim como eu o mostro presente e atuante em você”.

Há quem pense na mística e na espiritualidade como coisas complicadas e exóticas, acessíveis apenas a pessoas muito especiais. A fé cristã nos assegura que, ao contrário, este caminho se realiza pela graça divina e é totalmente gratuito e democrático. É acessível a todos. Basta querer e aceitar o chamado divino. Vale para nós, hoje, o que Paulo escreveu aos cristãos de sua época: “Vocês não vivem mais sob o domínio dos instintos egoístas (carne), mas sob o Espírito e o próprio Espírito Divino habita em vocês” (Rm 8, 9).

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).
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