03 Mai 2019 | domtotal.com

Dia de quem trabalha é dia de aprendizado

O diálogo é essencial para a política, mas há momentos em que o diálogo é interrompido e a luta se transforma em verdadeira guerra.

A 'resistência' é expressão de que só a luta política e o reestabelecimento das regras do jogo democrático, com a liberdade de Lula, por exemplo, permitirão o reestabelecimento do diálogo.
A 'resistência' é expressão de que só a luta política e o reestabelecimento das regras do jogo democrático, com a liberdade de Lula, por exemplo, permitirão o reestabelecimento do diálogo. (Rovena Rosa/ABr)

Por Marcel Farah

O dia 1º de maio é uma data de celebração das vitórias históricas da classe trabalhadora. É data cheia de significado devido às lutas em defesa dos direitos. É um dia que ensina sobre a importância da luta política para a construção de direitos.

O diálogo é essencial para a política, mas há momentos em que o diálogo é interrompido e a luta se transforma em verdadeira guerra. Vivenciamos, hoje, momento como esse, de obstrução do diálogo.

Em 2016, quando as forças conservadoras se reaglutinaram em torno da meta comum de derrubar Dilma, houve nítida interrupção do diálogo. As regras do jogo foram desrespeitadas, precedentes foram inaugurados e, mesmo sem crime, o impeachment foi vitorioso, golpeando qualquer possibilidade de diálogo.

Aquele primeiro ato, sempre apoiado pelos meios de comunicação empresariais e por amplas camadas da população de classe média, ganhou sequência com a cínica sustentação do governo corrupto de Temer e com a prisão e interdição da candidatura de Lula em 2018. O resultado, todos sabemos, a eleição de Bolsonaro.

Essa sequência de acontecimentos recolocou a questão: qual a estratégia mais acertada para enfrentar estes retrocessos? Nesse ponto, há uma divergência antiga que se renova, quais os aliados de um projeto de esquerda, o que remete a, qual é o projeto da esquerda? Muitas questões se misturam quando se trata de discutir qual projeto de sociedade a esquerda defende, questões que dizem muito sobre quais esquerdas existem hoje.

Há apelos para que a esquerda seja “menos sectária”. Querem dizer, com isso, que a esquerda deve aliar-se a setores que apoiaram o golpe contra Dilma e que hoje são contra o governo Bolsonaro. Tal atitude tende a transformar o golpe de 2016 em algo legítimo, abrindo precedente para que se repita a ruptura institucional toda vez que os conservadores forem contrariados.

Na mesma linha, criticam o que chamam de retorno do PT aos seus anos de imaturidade, anos 80. Contudo, nos anos 80 o PT respeitava mais suas bases, era mais democrático, sua estrutura burocrática era mais leve e suas defesas mais coerentes com um projeto socialista, como a luta por democratização radical do estado, pela reforma agrária, pelo pleno emprego, pela democratização das comunicações, enfim, um retorno ao PT dos anos 80 é um retorno do partido à esquerda em si.

Dizem ainda, que o PT não deve defender uma bandeira que divida a esquerda, como o #LulaLivre. Mas, assim, estaríamos “passando o pano” para os desmandos da Justiça. Mais precisamente, da Operação Lava Jato, do que há de pior quanto aos desrespeitos aos direitos individuais, abrindo mão de um projeto político democrático. No mesmo sentido, aderiríamos a uma luta contra a corrupção seletiva, que só “pega” quem é de esquerda, livrando os demais – a não ser que seja para não perder a credibilidade.

Nessa toada, chegam a comemorar o (re)surgimento de outras forças de esquerda, que “disputariam” a liderança do campo progressista com o PT, inclusive com vistas a superar a identificação entre esquerda e PT. Novamente, o que há de fundo nesta questão, que permeia todas anteriormente citadas, é o fim do esquerda como alternativa real. O PT deve ser superado pelas próprias organizações de esquerda e não soterrado pelos ataques da direita.

Estes apelos, que buscam saídas moderadas, pois não compreenderam que o diálogo foi interrompido desde 2016. O motivo não foi a suposta inabilidade da Dilma para conciliar, mas sim a mudança de elementos do cenário político e do comportamento da direita frente a esse cenário. A unificação da direita, pós-derrota de Aécio, reagrupou conservadores em torno de um objetivo comum, retomar o governo federal, mesmo que a um alto custo, elegendo um fascista.

Não há conciliação possível com que quer eliminar o interlocutor. A “resistência” é expressão de que só a luta política e o reestabelecimento das regras do jogo democrático, com a liberdade de Lula, por exemplo, permitirão o reestabelecimento do diálogo.

Aproveitando este 1ª de maio podemos aprender com a história, que a democracia não foi construída só com diálogos e recuos para ampliar as alianças. Quem pensa assim será surpreendido com novos golpes.

Marcel Farah
Educador Popular
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