05 Mai 2019 | domtotal.com

Os limites da verdade

Um dos maiores estadistas da História, Winston Churchill, disse que em tempo de guerra a verdade é tão preciosa que tem de ser protegida por uma muralha de mentiras

Guaidó e seus aliados deixaram de levar em conta algo que parece óbvio: se o ministro da Defesa Vladimir Padrino pudesse derrubar Maduro, não entregaria o poder a Guaidó, nem a ninguém.
Guaidó e seus aliados deixaram de levar em conta algo que parece óbvio: se o ministro da Defesa Vladimir Padrino pudesse derrubar Maduro, não entregaria o poder a Guaidó, nem a ninguém. (Reuters)

Por Carlos Brickmann

Na crise venezuelana, uma coisa é certa: tanto o líder rebelde Juan Guaidó como quem o estimulou e apoiou acreditava na divisão das Forças Armadas, o que lhe permitiria depor Maduro. Não é estranho que lhe tenham passado essa informação, levando-o à armadilha da revolta que, tudo indica, saiu antes da hora. Estranho é que ele e seu grupo tenham acreditado na mentira.

Um dos maiores estadistas da História, Winston Churchill, disse que em tempo de guerra a verdade é tão preciosa que tem de ser protegida por uma muralha de mentiras. A informação em que Guaidó acreditou, de que os militares estavam prontos a derrubar Maduro, em troca de uma série de concessões (anistia, nada de investigações sobre a origem de certas fortunas) fez com que muitos de seus apoiadores secretos se colocassem abertamente a seu lado, pela deposição, e fossem neutralizados. Guaidó e seus aliados deixaram de levar em conta algo que parece óbvio: se o ministro da Defesa Vladimir Padrino pudesse derrubar Maduro, não entregaria o poder a Guaidó, nem a ninguém. Ficaria ele como o todo-poderoso. E se aliaria ao antigo vice, Tareck al Haissami, hoje ministro da Indústria, processado nos EUA por narcotráfico e principal contato venezuelano com o Hezbollah, para que o poder não lhes escapasse. Guaidó e outros oposicionistas seriam descartados, como Maduro, este perigoso demais para continuar vivo e livre.

Acreditar que o Exército de Maduro lhes daria o poder? Pois é.

Quem sabe, sabe

O presidente Bolsonaro chegou a dizer que a decisão de intervir ou não na Venezuela era dele, só dele. Não é bem assim: precisaria do aval do Congresso. Já quem conhece o jogo, como o vice Mourão e demais generais do Governo, jamais pensaram em intervenção. Seria caríssimo, arriscado, e, em caso de vitória, que é que faríamos para recuperar um país em frangalhos, onde há ainda grande número de adeptos de Maduro? E, se tudo desse certo, o vitorioso não seria o Brasil, mas Washington. Se Maduro é nocivo (como acha este colunista), os venezuelanos que o afastem. A ação do Brasil, como disse Bolsonaro em sua última declaração, termina no limite do Itamaraty.

Os homens de Maduro

El Aissami, ex-vice e ligadíssimo a Maduro, foi investigado não apenas pelos EUA, mas pelos próprios serviços venezuelanos de informação. Quem o aponta como contato de narcotraficantes e do Hezbollah é o relatório da informação venezuelana, que vazou. Esses contatos o tornaram bilionário.

Quem paga? 1

Todos escandalizados com as “refeições institucionais” de R$ 1,1 milhão do Supremo? Isto é só uma parte do quadro. Enquanto o Congresso estuda a reforma da Previdência, para fazer economia, o Senado contratou em um mês mais 334 assessores. Os 81 senadores tinham escandalosos 2.420 assessores, agora são 2.754. O senador Izalci, do PSDB de Brasília, é o campeão, com 74 assessores. O senador Reguffe, sem partido, de Brasília, tem nove. Antes das novas contratações, o custo dos assessores era de R$ 3,7 bilhões por ano.

Quem paga? 2

O jornal virtual Poder 360 apurou que 48 parlamentares (que votarão a Previdência) devem R$ 320 milhões à Previdência. São 45 deputados e três senadores. Há dívidas legítimas – R$ 191 milhões; há parlamentares que não pagaram e simplesmente esperam a cobrança judicial – R$ 129 milhões. O campeão de dívidas, diz o Poder, é Fernando Collor, do PTB alagoano. Tem dívida regular, R$ 3,79 milhões, e irregular, R$ 136.238.222,00. É seguido por Elcione Barbalho, do MDB paraense, mãe do governador Helder Barbalho. Dívida regular, R$ 23,09 milhões; irregular, R$ 23,9 milhões.

Dória, olha o Emílio Ribas!

Esta coluna recebeu impressionante mensagem de uma infectologista do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, entidade de 139 anos de história e ótima fama. O Emílio Ribas esteve na primeira linha de combate a epidemias de meningite, influenza, febre amarela; e atende a todos os que precisam.

O Hospital Emílio Ribas enfrenta agora o micróbio mais perigoso de sua história: a falta de condições de trabalho. Está sendo reformado desde 2014, por causa da reforma fechou metade dos leitos, e a tal reforma tem conclusão prevista para 2022. Quem precisar de atendimento, por favor, peça à infecção que volte daqui a alguns anos.  A médica se queixa da falta de medicamentos básicos, como dipirona, sulfas; boa parte do chão está coberta com papelão.

Não pode: acelera, governador João Dória! Precisamos do Emílio Ribas.

Leitura da boa

Um livro que vale a pena: Memórias da Imprensa Escrita, de um grande jornalista, Aziz Ahmed. É simples: 26 jornalistas contam trechos de suas carreiras, que incluem contatos com políticos históricos, grandes empresários como Roberto Marinho e Assis Chateaubriand, histórias, enfim, de gente que viveu momentos para lembrar. É de ler de uma vez, sem largar.

Carlos Brickmann
é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.
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