10 Mai 2019 | domtotal.com

Quando não existe diálogo, política é guerra


Governo libera por decreto o porte de armas para cerca de um milhão de pessoas, conforme sua profissão ou atividade represente risco, assim coloca em risco todas outras pessoas ao redor destas um milhão.
Governo libera por decreto o porte de armas para cerca de um milhão de pessoas, conforme sua profissão ou atividade represente risco, assim coloca em risco todas outras pessoas ao redor destas um milhão. (Marcos Corrêa/PR)

Por Marcel Farah

Cortes na ordem de 30% dos orçamentos das universidades e institutos federais vai inviabilizando a educação.

O governo sugere que pode reverter os cortes, caso a reforma da Previdência seja aprovada. Haveria um rombo anual de R$ 200 milhões advindo da Previdência, contudo, o mecanismo de Desvinculação das Receitas da União retira quantia aproximada do orçamento da Previdência. Ou seja, não há rombo.

Governo libera por decreto o porte de armas para cerca de 1 milhão de pessoas, conforme sua profissão ou atividade represente risco, assim coloca em risco todas outras pessoas ao redor destas 1 milhão.

O salário mínimo não será mais atualizado conforme a inflação e o crescimento econômico, o que garantia sua valorização real.

Em outra frente cerca de 50 conselhos de participação social são definitivamente extintos pelo governo federal. Os conselhos servem à interlocução entre o governo e setores específicos da sociedade civil como apoio para formulação de políticas públicas, por exemplo, sobre meio ambiente, combate à fome, políticas para idosos, políticas para mulheres, políticas para LGBT etc.

A sensação é que se desfazem todas as conquistas dos últimos anos a partir de simples canetadas. Aqui está algo sobre o que refletir. Será tão fácil reverter nossas, tão propaladas, conquistas, ou será que estas conquistas foram menos importantes do que pensávamos?

Penso que os avanços dos governos petistas mudaram a vida de muita gente, geraram empregos e aumentaram a autoestima. Mas, mantiveram a estrutura de nosso sistema intacta.

No momento em que um salto de qualidade era ensaiado, no sentido de adentrarmos em uma etapa de consolidação das conquistas pelo empoderamento das pessoas, principalmente com as mobilizações de 2013, o outro lado (a direita, extrema-direita e centro-direita), que buscava unidade há mais de 10 anos, viu a brecha que precisavam para virar o jogo.

O início das confrontações de 2013 miravam mais políticas públicas, melhores empregos, melhores condições urbanas (de mobilidade/transporte, lazer, saúde, segurança). Tanto que o Movimento Passe Livre, as manifestações contra as construções para a Copa2014 e o movimento indígena deram o tom daquele junho.

Ainda em 2012, Dilma resolveu enfrentar os setores financeiros cobrando pela redução dos juros, uma diferença fundamental entre seu governo e o de Lula.

Aliados incômodos dos governos petistas, os bancos nunca abriram mão de grandes lucros por meio do spread bancário. E o governo nunca assumiu os bancos como um entrave à superação da desigualdade e da democratização do Orçamento. Quando o fez, houve enorme reação, e a campanha de 2014 foi marcada pela troca de Dilma por Aécio na preferência dos banqueiros. Mas não foi o suficiente, e os banqueiros perderam. Demonstração de que tínhamos uma conjuntura propícia para o fortalecimento da organização popular.

Mas, as demandas dos movimentos só seriam atingidas com reformas estruturais, coisa que estava fora do horizonte dos governos petistas.

O cenário era de enfraquecimento do exagerado enaltecimento desses governos e um “puxão de orelha” que dizia que era preciso muito mais mudanças.

Era preciso políticas de empoderamento real das pessoas, não apenas conselhos consultivos.

Era preciso reforma agrária e não regularização fundiária para acalmar os movimentos de luta por terra.

Era preciso uma reforma política que barrasse o poder econômico na definição da composição do Congresso e não um caríssimo João Santana para reeleger Dilma.

Era preciso propor e reunir forças por uma reforma tributária que onerasse mais os ricos e menos os pobres e não uma reforma da Previdência que fizesse o contrário disso.

Era preciso conselhos de comunicação que pluralizassem a mídia e não a promessa de blindagem à mídia grande feita pelo governo.

Em seguida a junho de 2013, a mídia empresarial entrou em sintonia com setores do Judiciário, Ministério Público, e principalmente com os movimentos de rua financiados pela direita internacional, como o Movimento Brasil Livre. Daquele momento em diante, ascenderam mobilizações e novas lideranças da direita, em uma dinâmica de legitimação de posturas extremadas, e de rompimento do diálogo, como as manifestações homofóbicas, machistas, misógenas e fascistas de Jair Bolsonaro e sua turma.

Na origem do que hoje colhemos temos a interrupção do diálogo pela Globo, o Judiciário, o Ministério Público, junto a quem articulou a contestação da vitória de Dilma, em 2014, e seu impeachment sem crime, em 2016. Trabalho este que foi continuado pelos responsáveis pela prisão e inabilitação eleitoral de Lula, em 2018, e pela tolerância às fake news da campanha contra Haddad no mesmo ano.

O diálogo foi interrompido com o desrespeito às regras do jogo, com o golpe, com o incentivo à eliminação do interlocutor...

Por isso, podemos dizer que a responsabilidade pelo enfraquecimento dos governo petistas advêm do comedimento/erro do próprio PT. Mas, o concomitante fortalecimento da extrema-direita advém do ódio de classe dos setores conservadores e moderados (batedores de panela), que menosprezaram o diálogo, incentivaram a agressão, foram cúmplices de injustiças e inconstitucionalidades e, hoje, reclamam de Bolsonaro.

Moral da história, para retomar um processo de disputa real da sociedade, a esquerda, liderada pelo Partido dos Trabalhadores, deve ser quem defenda os interesses populares a partir de um projeto socialista, sem alianças com golpistas, sem meios termos. Devemos aprender com a história a ser uma esquerda para tempos de guerra.

Marcel Farah
Educador Popular
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