16 Mai 2019 | domtotal.com

O Brasil no divã

Feito Caim e Abel, esquerda e direita se digladiam numa luta estéril e esquizofrênica.

Graciliano Ramos jamais se rendeu ao vitimismo. Pelo contrário, escreveu a 'Memórias do cárcere'.
Graciliano Ramos jamais se rendeu ao vitimismo. Pelo contrário, escreveu a 'Memórias do cárcere'. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

O saudosismo nunca se fez tão presente na vida nacional quanto hoje. Incapaz de fazer autocrítica, a esquerda ainda culpa as elites e os militares por todos os males do país. Enquanto isso, o discurso da direita no poder é o mesmo do passado, recheado de falso-moralismo, revanchismo e preconceitos.

A nostalgia parece ser uma característica atávica do brasileiro. Os portugueses que aqui chegaram choravam no fado as saudades da terrinha. Africanos escravizados espantavam o banzo dançando e cantando nas senzalas. Os índios, por sua vez, choravam o paraíso perdido de Pindorama.

De geração em geração, o saudosismo foi se enraizando no nosso sangue e na nossa alma. Sem tradução em outros idiomas, saudade é uma palavra exclusiva da língua portuguesa e expressa um sentimento cada vez mais presente no panorama político.

Ausência de ideias

Desde o regime militar, nossa classe pensante tem se dedicado muito mais à militância ideológica do que à atividade intelectual propriamente dita. Curiosamente, o mesmo não ocorreu após o Estado Novo. Ao esfriar das cinzas do DIP, artistas e intelectuais retomaram para si a tarefa de pensar o país.

Mesmo na prisão, Graciliano Ramos jamais se rendeu ao vitimismo. Pelo contrário, escreveu Memórias do cárcere. A ditadura varguista tampouco serviu de pretexto para imobilizar intelectuais como Darcy Ribeiro, Guimarães Rosa, Josué de Castro, Milton Santos, Millôr Fernandes, Nelson Rodrigues e Paulo Freire.

De 1946 a 1968, o Brasil viveu o auge da efervescência criativa. O ensino tinha qualidade. Os jovens de classe média ouviam boa música e discutiam literatura, cinema e teatro com a mesma paixão da política. Em comparação com os dias de hoje, é impossível não ser saudosista.
 
Órfãos da ditadura
 
Com raras exceções, a esquerda vive presa ao passado como o indivíduo que culpa os pais repressores pela própria derrota. Aqueles que alardeiam um suposto golpe – na tentativa de justificar a “resistência” ao governo eleito – são tão órfãos da ditadura quanto os radicais de direita.

O primeiro grupo só se realiza no combate e na desqualificação do adversário. O segundo cultiva a ilusão de que “bom mesmo era no tempo dos militares”. Feito Caim e Abel, esquerda e direita se digladiam numa luta estéril e esquizofrênica, que só contribui para nutrir o imobilismo e o ódio.

O péssimo nível político resulta da indigência de ideias. O país enfrenta uma crise ética, estética, moral, política e econômica. O navio tem um rombo no casco, um temporal pela frente e um motim a bordo.

Falta coragem e independência às elites pensantes – se é que elas ainda existem. Afinal, o passado deve servir de referência e não de desculpa para os fracassos de hoje. 

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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