24 Mai 2019 | domtotal.com

Agrotóxicos, a política da morte

Agrotóxico é veneno e mata. Não é defensivo agrícola, nem substância fitossanitária, é veneno.

Os casos de doenças por intoxicação têm aumentado a cada ano, em 2017 foram registrados 4 mil casos, duas vezes mais do que em 2007, segundo a Fundação Oswaldo Cruz
Os casos de doenças por intoxicação têm aumentado a cada ano, em 2017 foram registrados 4 mil casos, duas vezes mais do que em 2007, segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Agência Brasil)

Por Marcel Farah

É impressionante o aumento do número de substâncias tóxicas liberadas pelo governo federal desde o golpe contra a presidente Dilma. Uma das razões do golpe foi dar maior liberdade para a bancada ruralista e o setor do agronegócio implementarem plenamente seu modelo de agricultura: monocultivo em grandes propriedades, devastador ambiental, de uso intenso de agrotóxicos e baixo uso de mão-de-obra. Em contrapartida, a cada dia, mais veneno é servido à mesa da população.

Trata-se de um controle sobre quem deve viver e quem deve morrer pelo contato ou ingestão de veneno neste país periférico chamado Brasil. Este é um dos elementos da (necro)política implementada pelo golpista Temer e continuada pelo governo Bolsonaro.


 

A tabela acima, retirada de reportagem do jornal Brasil de Fato, mostra a evolução das substâncias agrotóxicas liberadas para uso nos últimos anos. Como se pode ver, há um crescimento exponencial a partir de 2016, ano do golpe contra Dilma.

Desde a promulgação da Constituição Federal em 1988, passando por FHC, e também por Lula e Dilma, é notável a adaptabilidade da bancada ruralista, representantes parlamentares do agronegócio, que nunca saem da base de apoio dos governos. Eles não deixam barato, para apoiar cobram o preço, com medidas que favoreçam o modelo de agricultura que predomina no campo brasileiro, cujo principal objetivo é a exportação de commodities e não a produção de alimento ou emprego, e que, cada vez mais, tem se internacionalizado e financeirizado. Hoje, bancos são grandes players do agronegócio brasileiro. Mesmo com a pobreza, a miséria e a fome aumentando, ao invés de alimentos, o campo produz lucro.

Um dos efeitos mais nefastos de tal modelo de produção agrícola, tão idolatrado por seus resultados positivos para a balança comercial, é o uso intensivo de veneno e os males daí advindos. Agrotóxico é veneno e mata. Não é defensivo agrícola, nem substância fitossanitária, é veneno. Mata, quando não é de uma vez, é aos poucos. Os casos de doenças por intoxicação têm aumentado a cada ano, em 2017 foram registrados 4 mil casos, duas vezes mais do que em 2007, segundo a Fundação Oswaldo Cruz. O Brasil é o recordista entre os países do mundo em uso de agrotóxicos, das 2184 substâncias permitidas aqui, 1024, quase 50%, são classificadas como extremamente ou altamente tóxicas.

A ganância do agronegócio pelo lucro, considerando o lugar de destaque ocupado pelo setor, em um país agrário como o Brasil, consegue alterar a natureza da soberania nacional em si, desvirtuando o Estado de suas funções primordiais, no sentido que Achille Mbembe atribui à necropolítica, o poder de decidir quem é importante e quem não é, quem é descartável. O objetivo das elites brasileiras, entre elas as ruralistas, com a derrubada do governo Dilma e com a eleição de Bolsonaro, que, lembremos, só foi possível com a interdição de Lula, é ampliar o controle sobre, no fundo, quem deve viver e quem deve morrer neste país agrário colonial.

Marcel Farah
Educador Popular
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