30 Mai 2019 | domtotal.com

O escritor e o letrista

Depois que o Nobel saiu para Bob Dylan, em 2016, a letra musical ganhou status literário.

O fato de Chico Buarque ser um compositor consagrado deve ter pesado a seu favor no Prêmio Camões.
O fato de Chico Buarque ser um compositor consagrado deve ter pesado a seu favor no Prêmio Camões. (Divulgação)

Por Jorge Fernando dos Santos

Chico Buarque ganhou o Camões, prêmio concedido anualmente a um escritor de língua portuguesa. A notícia é da semana passada, mas o fato merece reflexão. Desde que o Nobel saiu para Bob Dylan, em 2016, a letra musical ganhou status literário.

No caso de Dylan, considerar letra como literatura soa tão absurdo quanto premiar o grande romancista Cormac McCarthy com o Gremmy. Afinal de contas, pelo que se sabe, ele não é músico nem compositor.

A letra geralmente está a serviço da melodia. Quem lê um songbook sem conhecer as canções percebe que os textos perdem muito da essência. Claro que existem exceções! Por outro lado, musicar poemas é algo temeroso, pois nem sempre o resultado será bom.

O fato de Chico Buarque ser um compositor consagrado deve ter pesado a seu favor no Prêmio Camões. Não fossem as letras e o sucesso musical, ele dificilmente o ganharia. Com certeza seus livros têm qualidade, mas não estão acima da média do que se produz em língua portuguesa.

Para comprovar o fato, basta comparar seus romances à obra de outros laureados, como Dalton Trevisan, João Ubaldo Ribeiro, Lygia Fagundes Telles, Mia Couto ou Rubem Fonseca. Mesmo o supervalorizado Raduan Nassar tem mais qualidades enquanto escritor.

Projeto literário

É provável que Chico tenha adiado seu projeto literário após estourar com A banda, em 1966. Ainda jovem, chegou a publicar um conto chamado Ulisses, mas ficou nisso. O fato de ser um grande leitor em mais de uma língua com certeza estimulou sua verve literária.

Fazenda modelo (1974) é outro exemplo desse projeto. Lançada no auge da ditadura militar, quando o cantor era perseguido pela Censura Federal, a chamada novela pecuária foi baseada no clássico A revolução dos bichos, de George Orwell – sendo pouco original e muito ruim.

Seu envolvimento com o teatro é notável. Escreveu Roda viva, que ganhou qualidade com a direção inventiva de José Celso Martinez Corrêa. Ele também cobriu de melodias os versos de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto. O resultado foi excelente.

Como adaptador, concebeu Gota d’água (com Paulo Pontes, inspirada em Medeia), Ópera do malandro (em Bertolt Brecht e John Gay) e Os saltimbancos. Em 1971, escreveu a datada Calabar – O elogio da traição (com Ruy Guerra). Contudo, em todos esses trabalhos a trilha sonora superou o texto.

Já na maturidade, Chico Buarque arregaçou as mangas nos intervalos da carreira musical para se dedicar aos romances. Os dois primeiros foram os sofríveis Estorvo (1991) e Benjamim (1995), ambos aparentemente influenciados pelo Nouveau Roman francês.

Pouco a pouco, o autor foi pegando o jeito e finalmente escreveu três livros de fôlego: Budapeste (2003), Leite derramado (2009) e O irmão alemão (2014). Contudo, nenhum deles tem o peso de sua obra musical. Sei que estou comprando briga, mas devo confessar que também sou fã de carteirinha... do compositor.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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