06 Jun 2019 | domtotal.com

Liberdade de expressão

O Brasil nunca perdeu o ranço autoritário, que vem desde a proclamação da República.

Historiador dos mais lúcidos e polêmicos do país, Marco Antonio Villa sempre foi independente nos seus comentários.
Historiador dos mais lúcidos e polêmicos do país, Marco Antonio Villa sempre foi independente nos seus comentários. (Reprodução/Youtube)

Por Jorge Fernando dos Santos

O afastamento de Marco Antonio Villa da rádio Jovem Pan causou estranheza entre os ouvintes da emissora. Os supostos motivos vão desde os compromissos da rádio com o governo Bolsonaro até os elogios que Villa fez a Chico Buarque, quando o cantor ganhou o Prêmio Camões de Literatura.

Há também que se considerar a promoção de Felipe Moura Brasil para a diretoria de jornalismo. Felipe sempre apoiou Bolsonaro e é amigo do filósofo Olavo de Carvalho, desafeto de Villa. Por outro lado, outras mudanças têm sido feitas na redação da emissora.

Historiador dos mais lúcidos e polêmicos do país, Marco Antonio Villa sempre foi independente nos seus comentários. Profundo conhecedor da história nacional, sobretudo no que se refere ao período militar, nunca deixou de criticar os políticos, independentemente de ideologias.

Villa bateu de frente com Bolsonaro mesmo antes das eleições. Depois da posse, passou a salientar o óbvio. Ou seja, que a maioria dos eleitores votaram nele não por convicção, mas para evitar a volta do PT. Declarações estapafúrdias de certos ministros e dos filhos do presidente também suscitaram merecidas críticas. 

Jornalismo X publicidade

Bolsonaristas radicais aplaudiram a decisão da Jovem Pan. A esquerda, por sua vez, não se pronunciou a respeito. Aliás, seus militantes também se calaram quando o STF censurou a revista Crusoé e o humorista Danilo Gentili foi condenado no processo movido pela deputada Maria do Rosário.

O que mais incomoda quando jornalistas e artistas são silenciados por interesses obscuros é justamente a omissão dos defensores da democracia e da liberdade de expressão. Naturalmente, não é o caso dos petistas, cujo projeto de poder sempre incluiu o “controle social da mídia”.

Como disse o escritor inglês George Orwell, autor dos clássicos A revolução dos bichos e 1984, “jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique; todo o resto é publicidade”. Em tempos de intolerância, as liberdades democráticas e o direito à informação correm sérios riscos.

Na verdade, o Brasil nunca perdeu o ranço autoritário que vem desde a proclamação da República. Como o próprio Marco Antonio Villa costuma ressaltar, o período republicano foi desde o início marcado por sucessivos golpes de Estado.

Seja qual for o motivo do seu afastamento dos microfones da Jovem Pan, o fato é que o atual governo tem se revelado um dos mais ineptos e confusos do período pós-militar. Tanto é verdade que alguns importantes apoiadores do candidato Jair Messias já abandonaram o barco do capitão Bolsonaro.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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