13 Jun 2019 | domtotal.com

O canto roseano de Celso Adolfo

'Remanso de Rio Largo' apresenta melodias sofisticadas, mas com levadas tipicamente mineiras.

Celso Adolfo é com certeza um dos compositores de MPB mais fiéis aos ritmos do interior de Minas.
Celso Adolfo é com certeza um dos compositores de MPB mais fiéis aos ritmos do interior de Minas. (Divulgação)

Por Jorge Fernando dos Santos

O cantor e compositor Celso Adolfo acaba de lançar no projeto Sempre um Papo o seu nono CD, Remanso de Rio Largo. São ao todo 16 composições inspiradas nos contos do livro Sagarana, de Guimarães Rosa. Celso, que sempre foi influenciado pelo autor, navega à vontade pelo seu imaginário.

Nascido em São Domingos do Prata, Celso Adolfo Marques se mudou para Belo Horizonte ainda jovem, para estudar na Escola Técnica Federal. Nos seus tempos de projetista do DER, costumava ler Grande Sertão: Veredas, que mantinha na gaveta, escondido no chefe.

Dono de raro talento, não demorou a abraçar a música como profissão de fé. O primeiro LP foi produzido por Milton Nascimento, em 1983. Entre as dez faixas, ganharam destaque Cão vadio, Coração brasileiro, Arenga-de-sapo, Azedo e mascavo e Calango dela. Nós dois, também de sua autoria, tornou-se um clássico do seu repertório. 

Sinfonia de palavras

Guimarães Rosa é com certeza o escritor que mais inspirou o cancioneiro nacional. Isso talvez se deva à sua ligação com a música típica do sertão mineiro. Boa parte de sua obra reproduz quadras de domínio público, algumas adaptadas por compositores como Geraldo Vandré (Cantiga Brava) e Téo de Azevedo (Veredas do Grande Sertão).

Tom Jobim considerava Grande Sertão: Veredas uma espécie de sinfonia de palavras, tamanho o ritmo do texto, sobretudo quando lido em voz alta. A influência do autor na obra do maestro se manifesta principalmente na composição Matita Perê, sua única parceria com Paulo César Pinheiro.

Na galeria dos CDs que homenageiam Rosa destacam-se Rosário, do Grupo Nhambuzin, lançado em 2008 pelo selo Paulus; e Imaginário Roseano, de Geraldo Vianna, João Araújo e Rodrigo Delage. Este reúne clássicos da MPB que remontam ao universo do escritor.  

Ritmo e prosódia

Vale destacar que Celso Adolfo é com certeza um dos compositores de MPB mais fiéis aos ritmos do interior de Minas. Seu novo CD apresenta melodias sofisticadas, mas com levadas tipicamente mineiras. Desfilam na bolacha coco, calango, batuque, samba-rural e modas que remontam ao universo de violeiros e cantadores tradicionais.

O que mais chama atenção, no entanto, é o primor das letras, com palavreado típico que reproduz a linguagem de Guimarães Rosa. São expressões sertanejas, como pito, siô, quindim, antonte, tição, quicé, sezão, zoeira, calango-frito, taboa e muitas outras, que dão à cantoria a prosódia exata e a cor local dos contos de “Sagarana”.

Produzido por Robertinho Brant, o CD reúne músicos de primeira, entre eles Beto Lopes (violão), Frederico Heliodoro (baixo), Ricardo Fiuza (piano e fender) e o mestre da percussão Marco Lobo, que já acompanhou Maria Bethânia e Carlinhos Brown, entre outros. O próprio Celso toca violão e viola com a destreza de sempre: matuto cantador dos bão!

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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