15 Jun 2019 | domtotal.com

Festas juninas no Brasil dos nossos dias

Quando o cristianismo se impôs, os ritos pagãos da fertilidade assumiram vestes cristãs e passaram a venerar santos, aos quais o povo atribuiu poderes semelhantes às divindades antigas.

Nos últimos meses, o país tem visto aumentar o número de pessoas que vão às ruas para expressar o seu desacordo com o desmonte da educação e o seu protesto contra projetos como a Reforma da Previdência. Nas festas juninas desse ano, certamente esses temas
Nos últimos meses, o país tem visto aumentar o número de pessoas que vão às ruas para expressar o seu desacordo com o desmonte da educação e o seu protesto contra projetos como a Reforma da Previdência. Nas festas juninas desse ano, certamente esses temas (Antonio Cruz/ Agência Brasil)

Por Marcelo Barros

No calendário turístico de várias cidades brasileiras, o mês de junho é marcado pelas festas juninas. Desde o começo do mês, de Norte a Sul, o país é tomado por festejos tradicionais, próprios dessa época. Conforme a região, mudam de estilo e de forma e envolvem, desde crianças nas escolas até clubes de futebol e grupos de vizinhos nas ruas das cidades. No interior do Nordeste, as festas juninas chegam a ser mais importantes e envolventes do que o Natal e mesmo o carnaval.

Há quem considere as festas juninas como resíduos anacrônicos de uma sociedade rural, sem mais espaço na cultura urbana do século 21. No entanto, é nas cidades que as duplas sertanejas mais fazem sucesso. São as cidades de médio porte que mais investem no turismo que cresce nesses dias de festa. É claro que a cultura contemporânea, marcada pela urbanização e pelo cuidado ecológico exige algumas mudanças. Não se veem mais fogueiras nas portas de muitas casas, como ocorria antigamente. E as brincadeiras ganham sentido mais simbólico e conteúdo social mais explícito. Muitas vezes, jovens em situação de risco, que não entram em outras atividades pedagógicas, quando se fala em quadrilha ou casamento caipira, se organizam quase espontaneamente e com grande disciplina comunitária e louvável capacidade de mobilização social.

Desde que a humanidade existe, gosta de celebrar festas religiosas por ocasião do solstício do verão que, no sul, corresponde ao inverno. Na noite de 21 de junho, em toda a Cordilheira dos Andes e em alguns outros pontos da América do Sul, as comunidades autóctones celebram o ano novo andino. A passagem de ano é marcada pelo solstício do inverno. No hemisfério norte ocorre no 1º de janeiro e no Sul neste momento de junho.

O próprio mês de junho herda o nome de Juno, antiga deusa-mãe dos romanos, responsável pela fertilidade da terra e pela fecundidade feminina. Quando o cristianismo se impôs, os ritos pagãos da fertilidade assumiram vestes cristãs e passaram a venerar santos, aos quais o povo atribuiu poderes semelhantes às divindades antigas. Santo Antônio herdou o título de "santo casamenteiro", são João Batista ficou ligado à fogueira, enquanto são Pedro vê sua festa tomada pelos festejos do boi-bumbá. O povo continuou a comemorar divindades ancestrais, mas convenceu os padres de que as fogueiras que acendiam nessa noite eram em honra de são João. Os nobres conseguiam reproduzir nos palácios danças simbólicas que, disfarçadamente, reviviam ritos antigos.

Nas senzalas e terreiros, criados e pessoas da plebe ridicularizavam seus patrões e patroas, parodiando seus costumes e imitando suas danças juninas. No começo, as quadrilhas feitas pelos pobres eram estritamente secretas e só se faziam em ambientes de muita confiança. Depois, os nobres perderam seus títulos e os pobres assumiram, em tom de farsa, a subversão de sua imitação da corte. Até hoje, nessas festas, se veem pessoas marginalizadas chamando-se de cavalheiros e damas; mulheres e homens do campo fantasiados de ricos e brasileiros analfabetos dirigindo a quadrilha com expressões francesas, por eles reinventadas. A ordem "anarriê" substitui o francês en arrière (para trás); "anavã" entra no lugar de en avant (para frente); "changedidame" (changez de dame) faz o pessoal mudar de par, e "otrefuá" (Autre fois) serve para dizer "outra vez".  Nos casamentos matutos ou caipiras, as figuras do padre e do juiz da roça são sempre ridicularizadas e a moral tradicional se revela falsa e vazia.

Para as culturas indígenas e populares, mais do que para a sociedade secularizada do Ocidente, a passagem de um ano a outro é símbolo e deve significar a entrada de um tempo novo não só na natureza, mas na vida da comunidade e de cada pessoa. Diante de governantes que se pronunciam contra a educação, revelam preconceitos sociais contra minorias e tomam posições contra o interesse dos mais pobres, é significativo ver que o povo não se intimida. Nos últimos meses, o país tem visto aumentar o número de pessoas que vão às ruas para expressar o seu desacordo com o desmonte da educação e o seu protesto contra projetos, como a reforma da Previdência. Nas festas juninas desse ano, certamente esses temas aparecerão em forma de sátira e deboche. Em todo o Brasil, as festas juninas mostram um povo que, apesar de pobre, sofrido e castigado, não perde a alegria e a capacidade de brincar.

Assim, pode vencer a tentação da violência e contribuir para uma cultura de paz.  

Nesses dias, o Brasil é governado por pessoas que manifestam claramente posições antissociais e preconceituosas contra pobres e contra as comunidades originárias.

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).
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