21 Jun 2019 | domtotal.com

Jornalismo penal do inimigo

O jornalismo tendencioso, apesar de esteticamente louvável, construiu dois monstros: o da inquisição penal pública, e do 'Lula ladrão'.

É perceptível, portanto, a importância da manutenção da tática de vazamentos parciais.
É perceptível, portanto, a importância da manutenção da tática de vazamentos parciais. (Pixabay)

Por Marcel Farah

Pouco a pouco, como em um gotejamento, a Globo e outros grandes meios de comunicação foram construindo uma imagem de que Lula era corrupto. Horas e horas de reportagens foram dedicadas ao petista, explorando todos os possíveis indícios de desvios e ilícitos. O ódio contra o ex-presidente que vemos hoje foi construído assim.

Isso acontece pelo menos desde que Lula foi candidato contra Fernando Collor, em 1989, e lá se vão 30 anos. Contudo, houve intensificação dessa postura no período recente como mostra o levantamento feito pelo Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (Lemep) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, segundo o qual, somente no Jornal Nacional, da Globo, “entre o final de dezembro de 2015 e agosto de 2016, foram ao ar praticamente 13 horas de notícias negativas sobre o ex-presidente, apenas quatro horas de noticiário considerado neutro e nem um segundo de notícias com viés positivo”.

Além do tempo dedicado a acusar Lula, ainda segundo o Manchetômetro do Lemep, o Jornal Nacional, em metade de suas reportagens, não respeitou o contraditório, não respeitando o direito de defesa da parte contrária. Logo, não só Lula foi atingido como também o próprio princípio da presunção de inocência, da ampla defesa e do contraditório.

O jornalismo tendencioso, apesar de esteticamente louvável (o que faz parte da luta por manter a credibilidade), construiu dois monstros, ou, pelo menos, os aperfeiçoou: o monstro da inquisição penal pública, e o monstro do “Lula ladrão”. Ao mesmo tempo fortaleceu a imagem de um inimigo público e de um certo direito penal do inimigo.

Por tudo isso, o contra-ataque do Intercept Brasil foi muito bem pensado. A revelação de  informações sobre Moro e Dalagnol, utiliza da mesma tática do gotejamento, e vai reconstruindo, pouco a pouco, mais do que a inocência de Lula, a necessidade do direito ao contraditório, à ampla defesa e o próprio princípio da presunção de inocência. Assim como a necessidade de uma mídia plural e uma Justiça imparcial. Estamos aprendendo estes conceitos na prática.

Caso as informações fossem publicadas como um todo ao mesmo tempo teríamos um pico, um escândalo como outro qualquer, que nasce, cresce e logo é suplantado pela agenda de interesse da grande mídia. Mas, o que está em curso é a caracterização de que não se tratou de um “descuido”, mas de uma postura, com repetidos e constantes exemplos, desrespeitosa e desonesta, não só imoral mas essencialmente ilegal, do órgão judiciário que julgou Lula. E também da imprensa que o noticiou.

É perceptível, portanto, a importância da manutenção da tática de vazamentos parciais. Não se trata apenas de mostrar a perseguição a Lula, mas essencialmente mostrar o autoritarismo e o menosprezo pelo Estado Democrático de Direito, pela ética jornalistica, e que reforça um sentido da justiça como vingança política, sem direito a defesa.

O respeito ao contraditório nos coloca a salvos do jornalismo penal do inimigo.

Marcel Farah
Educador Popular
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