25 Jun 2019 | domtotal.com

Dom Moacyr Grecchi: representante de uma geração

Apoiou todas as lutas populares que aconteciam na Amazônia.

Entusiasta da Teologia da Libertação, apresentou-a não apenas dentro dos limites da Igreja, mas também fora dela.  
Entusiasta da Teologia da Libertação, apresentou-a não apenas dentro dos limites da Igreja, mas também fora dela.   (Agência Acre)

Por Maria Clara Bingemer

A notícia da morte do grande Dom Moacyr Grechi, arcebispo emérito de Porto Velho, traz a todos que vivemos e amamos a conferência episcopal brasileira dos anos 1970 e 1980 uma sensação ao mesmo tempo de gratidão e tristeza. Foram tempos em que os bispos do Brasil se destacavam por seu profetismo, denunciando a ditadura e as torturas, e promovendo todas as iniciativas sociais que prometiam um futuro melhor para os mais pobres.

Hoje, celebrando a Páscoa deste grande homem, sentimo-nos movidos a fazer dele memória. Não apenas recordar um passado que se foi, mas crer em um passado que se torna motivação para bem viver o presente e abre um futuro prenhe de esperanças.

Nasceu em 1936 esse catarinense que já bem jovem entrou na Ordem dos Servos de Maria, seguindo toda a formação na mesma ordem e sendo ordenado sacerdote em 1961. Com uma formação de alta qualidade dentro da ordem religiosa à qual pertencia, Dom Moacyr fez mestrado em teologia em Roma e era, reconhecidamente, pessoa de grande erudição. Lia muito e em diversos idiomas.  E estava sempre informado e antenado com tudo o que se passava no Brasil e no mundo.

Em 1972, foi nomeado bispo da diocese de Rio Branco, durante o pontificado do Papa Paulo VI, hoje canonizado pelo Papa Francisco. Em 1998, foi nomeado arcebispo de Porto Velho, Rondônia, diocese onde passou longos anos. Aposentou-se e recebeu o título de emérito em 2012.  Sua atuação na igreja local, pela qual era responsável, foi sempre dedicada, aberta e próxima de todas as lutas dos pobres.

Entusiasta da Teologia da Libertação, apresentou-a não apenas dentro dos limites da Igreja, mas também fora dela. Os sindicalistas e ativistas sociais, como Chico Mendes e Marina Silva, estiveram entre os que pertenciam ao círculo de companheiros de luta e amigos do arcebispo.  Apoiou todas as lutas populares que aconteciam na Amazônia.     

Na CNBB, foi um dos criadores de importantíssimos órgãos que até hoje perduram e fizeram a conferência brasileira uma das mais respeitadas no mundo inteiro.  Entre esses órgãos, estão o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), da qual foi presidente por oito anos. Destacou-se pela defesa de todas as categorias oprimidas dentro da realidade onde se situava sua diocese.  Indígenas, seringueiros e trabalhadores rurais sempre encontraram nele um valente defensor e advogado.

Graças à sua atuação e seu testemunho, o ex-deputado Hildebrando Pascoal, um chefão do tráfico de drogas na região amazônica, teve seu mandato cassado. Enfrentou obstáculos de todos os tipos, arriscou até mesmo sua vida, conversou com autoridades e testemunho, até que finalmente Pascoal foi cassado.  O bispo participou igualmente do movimento que desbaratou uma quadrilha, a maioria formada por ex-policiais militares.

Quando Chico Mendes foi assassinado, Dom Moacyr lutou bravamente pela punição de seus algozes.  Conhecia o seringueiro pela atuação em defesa da floresta e participação nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Era entusiasta apoiador das comunidades que nasciam a partir da leitura da Bíblia aplicada à realidade, gerando resistência e iniciativas transformadoras. Era um grande promotor da leitura popular da Bíblia e a partir dela deu grande impulso às CEBs, que se estruturam a partir da centralidade da Palavra de Deus.

Como arcebispo de Porto Velho, contribuiu para a criação da Faculdade Católica de Rondônia, da Comissão Justiça e Paz do estado e para o fortalecimento dos Centros Sociais da Arquidiocese.  Foi membro delegado, pela CNBB, da 5ª Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho (Conferência de Aparecida), que aconteceu em maio de 2007.  Aí teve bem próximo contato com Jorge Mario Bergoglio, então arcebispo de Buenos Aires, que futuramente seria o Papa Francisco.

Sobre ele, dizem pessoas que o conheciam bem de perto: tinha senso de humor apuradíssimo, era exímio orador, capaz de entusiasmar a audiência desde as primeiras palavras. Destacava-se pela lealdade às pessoas, amigo dos pobres, que defendeu por toda a vida.

Seu lema enquanto bispo era “o último de todos e o servo de todos”. O próprio Dom Moacyr declarou, em entrevista à revista “Família Cristã, acreditar “que a principal tarefa da Igreja é formar os seus cristãos. E nessa formação estão a palavra de Deus, a oração, os sacramentos, a solidariedade e a luta pela justiça. A Igreja do Acre, por exemplo, foi praticamente a mãe de todos os movimentos populares desse estado. Eu diria que só é cristão de verdade aquele que se empenha na luta pela justiça para os seus irmãos, pelo bem-estar do povo. Mas nós nunca devemos misturar as coisas, a comunidade com os partidos políticos. ”

Sua morte deixa saudade e nostalgia de tempos em que a Igreja brasileira se destacou no combate à injustiça e na defesa dos direitos humanos como elementos intrínsecos à sua missão evangelizadora.  Dom Moacyr era um dos últimos que restavam desta luminosa geração episcopal. Descanse em paz, servo bom e fiel.  Entra no gozo do teu Senhor!

Maria Clara Bingemer
é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de diversos livros, entre eles, ¿Un rostro para Dios?, de 2008, e A globalização e os jesuítas, de 2007. Escreveu também vários artigos no campo da Teologia.
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