04 Jul 2019 | domtotal.com

Guerrilha virtual

A guerra suja das fake news confunde a opinião pública, obscurece a verdade e alimenta hostilidades.

Na semana passa, a escaramuça foi em torno da prisão do segundo-sargento da FAB Manoel Silva Rodrigues.
Na semana passa, a escaramuça foi em torno da prisão do segundo-sargento da FAB Manoel Silva Rodrigues. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Vale tudo na guerrilha virtual, que tem como campo de batalha as redes sociais. Na semana passada, a escaramuça foi em torno da prisão do segundo-sargento da FAB Manoel Silva Rodrigues, em Sevilha, por transportar 39 quilos de cocaína em sua bagagem.

Como foi noticiado, o militar detido na terça-feira (25/6) fazia parte da comitiva do presidente Jair Bolsonaro rumo à conferência do G-20, no Japão. Ele viajava no avião que precedeu a aeronave presidencial. Esta acabou mudando a escala para Lisboa, logo após o incidente.

Bastou a notícia vir à tona para que se espalhassem fake news à esquerda e à direita. Aqueles que resistem ao governo eleito comemoraram o fato e tentaram jogá-lo no colo do presidente. O avião oficial ilustrou posts e reportagens, dando a entender que o traficante viajava nele.

Fotos manipuladas

Chegou-se a publicar a imagem de Bolsonaro na Marcha para Jesus de 2015, com Magno Malta e Silas Malafaia, tendo ao fundo um homem sorridente que identificaram como sendo o sargento da FAB. Na verdade, tratava-se do deputado federal Sóstenes Cavalcante, hoje no DEM-RJ.

Duas fotos do senador Flávio Bolsonaro foram falsamente legendadas nas redes sociais. Em nenhuma delas aparece Silva Rodrigues. Na primeira, o homem fardado é um sargento da PM do Rio. Na outra, Flávio e o pai estão à mesa de refeição com um policial do Bope. Já o boato de que o sargento preso era filiado ao PSL foi desmentido pelo Estadão.

Bolsonaristas também não ficaram atrás na falsificação dos fatos. Divulgaram nas redes sociais que Silva Rodrigues era filiado ao PT e integrante de comitivas presidenciais desde os tempos do governo petista, em 2011. As duas informações foram desmentidas por um porta-voz da Aeronáutica.

Fatos como esses evidenciam o quanto a guerra suja das fake news é nociva, servindo apenas para confundir a opinião pública, obscurecer a verdade e alimentar hostilidades. A própria mídia se mostra perdida no tiroteio, sob o risco de vender gato por lebre.

Falha de segurança

Há que se investigar a fundo o caso Silva Rodrigues, como, aliás, determinou o presidente. No entanto, vale perguntar como é que a Agência Brasileira de Informação (Abin) não consegue evitar esse tipo de ocorrência.

Não é possível que integrantes de uma comitiva presidencial não tenham suas vidas investigadas antes de serem convocados. O episódio foi uma grave falha de segurança que poderia ter sido evitada.

Por outro lado, é quase certo que o portador dos 39 quilos de cocaína não tenha estreado dessa vez. Dificilmente alguém transportaria tanta droga sem ter experiência e sem ser ligado a uma quadrilha especializada.

 O fato é que militares não estão acima da lei nem das tentações. A lição a ser aprendida sobre o caso já é mais que sabida. Infiltrado em várias instituições e em todos setores da sociedade, o crime é de fato organizado e o Estado brasileiro, não.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas