11 Jul 2019 | domtotal.com

A João o que é de João

Mais uma vez Bolsonaro perdeu a oportunidade de um gesto grandioso, acima das picuinhas ideológicas.

João Gilberto se apresenta em São Paulo, 2008.
João Gilberto se apresenta em São Paulo, 2008. (Marcos Hermes/AFP)

Por Jorge Fernando dos Santos

Pode-se não gostar de bossa nova, mas não decretar luto oficial pela morte de João Gilberto (sábado, 6/7) foi uma tremenda furada do presidente Jair Bolsonaro. Mais uma vez ele perdeu a oportunidade de um gesto grandioso, acima das picuinhas ideológicas.

O frio comentário do presidente sobre a morte do artista (“Uma pessoa conhecida, meus sentimentos à família”) comprovou, no mínimo, sua insensibilidade estética e a ineficiência de sua assessoria. Se até Bill Clinton tocou bossa nova na Casa Branca, qual é o problema do capitão Jair?  

Mais que um simples cantor e compositor, João Gilberto se fez o grande responsável pela maioridade da música brasileira. Foi graças à batida diferente do seu violão e à cadência do seu canto minimalista que a canção nacional deu o salto qualitativo. Sem isso, o samba continuaria sendo visto lá fora como um ritmo folclórico terceiro-mundista.

Bossa e balangandãs

Mesmo reconhecendo a importância de Camen Miranda, não podemos negar que a Pequena Notável se associou à política de boa-vizinhança dos EUA durante a Segunda Guerra. Tornou-se a primeira voz internacional da MPB, é fato, mas ajudou a firmar a aura picaresca da nossa cultura.

Carmen divulgou clássicos do cancioneiro nacional – como Tico-tico no fubá, Mamãe eu quero e O que é que a baiana tem –, mas cantou rumba fantasiada de baiana, o que nada tinha a ver com o país do carnaval. Com seus tamancos e balangandãs, ela fixou a falsa imagem do Brasil que os gringos queriam mostrar ao mundo naquele momento. 

João Gilberto, por sua vez, sofisticou o samba sem fazer concessões. É fato que o jazz influenciou a bossa nova, mas não há como negar que, ao mesmo tempo, a bossa nova renovou o jazz. Tanto é verdade que dezenas de músicos e cantores americanos se renderam a ela, entre os quais Stan Getz, Frank Sinatra, Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald. 

Inspirado na voz sussurrada de Mário Reis, no violão inovador de Garoto, na cadência do tamborim e no requebrado das lavadeiras da sua Juazeiro, na Bahia, João melhorou o que já era bom. Seu violão cabia uma orquestra inteira e seu jeito de cantar exprimia o essencial das palavras.

Mestre e discípulos

Sem João Gilberto, a modernidade de Tom e Vinicius talvez não tivesse se manifestado de forma tão impactante. Foi o cantor baiano que deu voz e ritmo às melhores criações dos dois compositores cariocas. De quebra, ele regravou clássicos à sua maneira e abriu caminho às novas gerações.

Sem João, é quase certo que músicos como Caetano Veloso, Carlos Lyra, Chico Buarque, Edu Lobo, Francis Hime, Gal Costa, Gilberto Gil, João Donato, Joyce Moreno, Marcos Valle, Milton Nascimento, Nara Leão, Roberto Carlos e Roberto Menescal tivessem sido artistas meramente convencionais. 

Ao contrário do mestre, que nunca falou de política publicamente, a maioria dos discípulos abraçou o ideário de esquerda e jamais engoliu a vitória de Bolsonaro nas urnas. Talvez tenha sido esse o motivo da má vontade do presidente com a memória do ilustre falecido – fato lamentável! 

Independentemente de “pães e opiniães” (como diria outro João), a obra artística deve suplantar o criador enquanto criatura. O fato é que João Gilberto é imortal e seu nome será lembrado daqui a 100 anos, enquanto outros (principalmente políticos) estarão sepultados na poeira do esquecimento.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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