12 Jul 2019 | domtotal.com

É roda que roda

Talvez a roda, em suas voltas, nos lembre da vida.

Ana Váleria faz show neste sábado no Cine Theatro Brasil Vallourec
Ana Váleria faz show neste sábado no Cine Theatro Brasil Vallourec (Gilmar Pereira)

Por Gilmar Pereira

No imaginário, a roda pode significar perfeição, já que não tem começo nem fim, sendo um traço completo. Ao mesmo tempo, lembrando o movimento e sendo construída para girar, ela evoca o ciclo, o tempo, a dimensão de processo que a vida tem. Por isso e por semelhança, a roda também simboliza o mundo.

Perfeição, processo e totalidade. Talvez a roda, em suas voltas, nos lembre da vida. Aliás, há uma música católica que dizia: "O mundo dá muitas voltas e a gente vai se encontrar. Quero nas voltas da vida, a sua mão apertar". Sim, a vida dá voltas e as coisas se repetem. Não há nada de novo e, já dizia outra canção, "ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais".

Também o livro bíblico do Eclesiaste diz: "O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós". Apesar dessa repetição, podemos pensar como o filósofo Heráclito que elas são as mesmas e já não são. Cada giro se dá num momento diferente. Talvez vivamos mais numa espiral que numa roda, mas ainda assim ciclicamente.

É bonito ver algumas perspectivas didáticas que optam por colocar os estudantes em roda, estabelecendo uma paridade entre os integrantes de uma sala de aula. Na mesma perspectiva, a lenda do rei Arthur conta que a távola, em volta da qual os cavaleiros se reuniam, era redonda. O círculo, ao não hierarquizar uma parte primeira, não só iguala como também irmana.

Não é à toa que algumas manifestações culturais e religiosas se dão em roda. Diversos grupos humanos fazem suas danças circulares ou, ao menos, em algum momento elas acabam descrevendo um círculo. Isso vai desde a dança escocesa até as indígenas. Já no Brasil, conhecemos bem as rodas de quadrilha junina, mas também as manifestações com matriz africana, como a roda de capoeira, a gira do candomblé e a roda de samba.

Do que nos é mais próprio, talvez a roda de samba seja a mais circular. Não pelo formato, que vira e mexe se entorta, fazendo caber mais ou menos gente que se achega. O samba faz a roda mais circular porque nela giram mais que corpos, afetos. Apesar de alegre, dizem que um samba só se faz com um bocado de tristeza. E no rodar das canções, entoa-se a vida da gente, a história, os sentimentos. O samba carrega a história não-oficial, carrega as lembranças do povo sofrido. Os vencidos, os empobrecidos, a voz dos morros, da gente pobre, dos marginalizados se faz ouvir. Canta a resistência e mesmo a banalidade do cotidiano. Com alegria e com melancolia.

Dona Ivone Lara: mas quem disse que eu te esqueço?

Um roda de samba para incluir mais gente, às vezes tem até mesmo que deixar de ser roda. Talvez até ganhar os palcos, justamente pela pluralidade que o samba possui. Com toda diversidade de fundamentos e vertentes com que se desenvolveu, o samba mexe com sentimentos e desperta emoções diversas, ao mesmo tempo em que promove a integração de pessoas de diferentes histórias e origens e alavanca memórias e afetos. É nessa pluralidade encontrada nas vivências das rodas de samba que a cantora Ana Proença traz o mais brasileiro dos estilos musicais em um "show homenagem" à Dona Ivone Lara.

Interpretado pela cantora Ana Proença, o show traz as composições de Ivone Lara passeando pelos clássicos e pelas canções emblemáticas da compositora, além de algumas de suas parcerias com grandes nomes do samba brasileiro. "Dona Ivone Lara: mas quem disse que eu te esqueço" conta com os instrumentos principais de uma roda de samba, como cavaco, pandeiro, rebolo, tantan e repique, violão de 7 cordas e o auxílio luxuoso da flauta, e busca imergir o expectador na história do samba com o repertório de Dona Ivone Lara.

DONA IVONE LARA: MAS QUEM DISSE QUE EU TE ESQUEÇO?

Show | Livre | 90min.
Sábado, 13 de julho às 19h30
INTEIRA – R$30/ MEIA – R$15
Local e informações: Cine-Theatro Brasil Vallourec
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Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
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