25 Jul 2019 | domtotal.com

De pai para filho

Saber inglês e ter fritado hambúrguer 'no frio do Maine' não credencia ninguém ao cargo de embaixador.

Pesquisas conflitam: 64,9% desaprovam e 59,4% aprovam a indicação de Eduardo Bolsonaro.
Pesquisas conflitam: 64,9% desaprovam e 59,4% aprovam a indicação de Eduardo Bolsonaro. (AFP)

Por Jorge Fernando dos Santos

Por ter nomeado seu cavalo Incitatus para o Senado Romano, o imperador Calígula pode ser acusado de tudo, menos de nepotismo. O mesmo não se aplica ao presidente Jair Bolsonaro, que insiste no filho Eduardo, de 35 anos, para o cargo de embaixador em Washington.

De fato, não é preciso ser do Itamaraty para chefiar uma embaixada. Convém lembrar que o presidente José Sarney indicou José Aparecido de Oliveira para embaixador em Lisboa. O mesmo cargo seria depois ocupado por Itamar Franco, nomeado por Fernando Henrique Cardoso.

No caso de Eduardo Bolsonaro, o principal empecilho é o parentesco com o mandatário. Sua indicação não é ilegal, mas não coaduna com os princípios da ética, sobretudo no mandato de um presidente que se elegeu prometendo moralizar a vida pública.

A embaixada nos States também não deve ser chefiada por alguém sem experiência diplomática. Afinal de contas, trata-se com certeza da mais estratégica de todas. Saber inglês e ter fritado hambúrguer “no frio do Maine” não credencia ninguém ao cargo de embaixador.

Incontinência verbal

Uma coisa preocupante é a incontinência verbal do presidente. Não bastassem os problemas que desafiam seu governo, Bolsonaro não pensa duas vezes antes de tomar uma atitude polêmica ou dizer uma grande bobagem. Aliás, nesse quesito, ele só perde para Dilma Rousseff.

Mesmo que tenha a humildade de voltar atrás ou de se explicar em alguns casos, suas controvérsias só servem para atiçar o ódio e municiar os adversários. Falta ao governo um Aurica, a figura romana que nos desfiles em honra dos comandantes vitoriosos sussurrava no ouvido deles, lembrando que, mesmo glorificados, continuavam sendo mortais.

Uma pesquisa revelou que 64,9% dos brasileiros desaprovam a indicação de Eduardo; outra, mais recente, aponta que 59,4% aprovam. De qualquer modo, o presidente persiste no erro. Só mesmo os direitistas radicais aplaudem o “mito” sob qualquer circunstância, da mesma forma que a esquerda apoia Lula cegamente.

Claro que o estrago seria maior se, em vez de eleito, Eduardo tivesse sido nomeado para o Legislativo – como aconteceu com Incitatus. Aliás, ele se elegeu deputado federal pelo PSL de São Paulo com 1.843.735 votos, o que já seria um bom motivo para permanecer no Congresso Nacional.

Mas se o presidente conseguir de fato nomeá-lo embaixador, quem sabe não faz o mesmo com os outros membros da dinastia. Não seria nada mau mandar o Flávio para a Cochinchina e Carlucho, para o Irã. Isso com certeza esvaziaria um pouco o festival de besteiras que assola o país – à esquerda e à direita.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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