01 Ago 2019 | domtotal.com

BH, o pão e o circo

Para ser eficaz, toda política cultural deve antes de tudo cuidar do patrimônio e da memória.

No Dia do Escritor (24/7), a casa onde morou Guimarães Rosa foi demolida.
No Dia do Escritor (24/7), a casa onde morou Guimarães Rosa foi demolida. (Antonio Salaverry/Arquivo Pessoal)

Por Jorge Fernando dos Santos

Em BH tudo acaba em samba. Nada contra o samba, patrimônio imaterial da cultura brasileira, mas, ao que parece, a política cultural do município resume-se a eventos de massa, tipo Carnaval, parada LGBT e Virada Cultural – com as atrações de fora sendo pagas a peso de ouro.

Contudo, no populismo do pão e circo falta-nos o pão. Este como metáfora daquilo que sustenta o que deveria ser duradouro, pelo menos em tese. No Dia do Escritor (24/7), a casa onde morou Guimarães Rosa, no bairro Santo Antônio, foi demolida. Cadê a indignação?

Um dos poucos a se manifestarem a respeito foi Afonso Borges, do Sempre um Papo. Em artigo no jornal O Globo, ele lamentou o fato e acrescentou: “Toda vez que uma cidade permite a destruição de seu patrimônio cultural, apaga-se também a força que o cheiro da memória traz”.

Enquanto isso, as sedes dos centros culturais da Prefeitura pedem socorro. Algumas apresentam rachaduras, goteiras e infiltrações, correndo o risco de desabar na próxima invernada de chuvas. No entanto, até agora, nem mesmo a imprensa tomou conhecimento do assunto.

A mão do poeta

Há quase dois anos não se realizam os concursos literários João de Barro e Cidade de Belo Horizonte (o mais antigo do país). Eles são fundamentais para revelar e consolidar talentos em reverência à memória da cidade-berço de poetas e ficcionistas de renome. Em outros tempos, os escritores já teriam feito o maior barulho.

Também falta cuidado com os monumentos. É o caso da estátua de Carlos Drummond de Andrade, que conversa com a de Pedro Nava quase nos fundos da PBH, na Praça Alberto Deodato, no meio do caminho entre a Secretaria e a Fundação Municipal de Cultura. Há vários meses o poeta está sem a mão direita, que repousa numa das gavetas da burocracia municipal.

E ainda reclamam cuidados as praças e canteiros centrais de nossas avenidas, muitos deles pisoteados no Carnaval e desde então abandonados à própria sorte. Enquanto isso, sem policiamento e câmeras de segurança, a recém-reformada Praça da Liberdade já sofre com o vandalismo.

Festas e shows são importantes para a cidade, não restam dúvidas, mas, para ser eficaz, toda política cultural deve antes de tudo cuidar do patrimônio e da memória – mesmo que isso não garanta votos ou popularidade aos mandatários.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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