02 Ago 2019 | domtotal.com

Chega de ilusões

A desilusão é imobilizadora, o pior veneno para a ação política.

A questão é o referencial a partir do qual criamos nossas expectativas. O referencial a partir do qual entendemos a realidade.
A questão é o referencial a partir do qual criamos nossas expectativas. O referencial a partir do qual entendemos a realidade. (AFP)

Por Marcel Farah

Se ilude a esquerda a pensar que o governo Bolsonaro se arruinará por conta própria. A inércia não nos favorecerá, nem um impedimento.

As ilusões tomaram conta da esquerda brasileira na mesma medida que esta se afastou de suas bases, da organização popular e comunitária, da comunicação popular e dos movimentos sociais, e se tornaram desilusão quando as ruas foram tomadas pela direita dos 2013 em diante.

A desilusão é imobilizadora, o pior veneno para a ação política. Precisamos de movimento e mobilização, tanto nas ruas quanto nas formulações teóricas, nas ideias.

Não é incompreensível que o sistema tente assimilar as denúncias de parcialidade de Moro e desvios de Deltan como se os fins justificassem os meios. Da mesma forma, o sistema bancou a destruição do legítimo governo Dilma, a prisão e impedimento de Lula, e legitimou uma campanha a base de caixa dois e mentiras como a de 2018.

A questão é o referencial a partir do qual criamos nossas expectativas. O referencial a partir do qual entendemos a realidade. Se partimos das regras da democracia como sistema dado, da separação dos poderes, da imparcialidade da Justiça, veremos que “tudo o que é sólido se desmancha do ar” como Berman. Contudo, à medida que assimilamos viver uma verdadeira luta de classes em um país colonizado e periférico, que, por vezes, assume o formato de uma guerra de classes, com o objetivo de eliminar o oponente, perceberemos que nem tudo se desmanchou.

Desmancha-se o republicanismo com que a esquerda governou o país, esperando comportamento semelhante da direita em troca. Ou a política de conciliação que evitou efetivar reformas igualitaristas, como a reforma agrária, tributária, urbana, das comunicações. Ou o conservadorismo que impediu o estado, sob o governo da esquerda de empoderar sua população, preferindo o acordo aos enfrentamentos com os privilegiados. Todo tipo de moderação, portanto, se desmanchou no ar.

Não se desmanchou, a força dos movimentos sociais e sindicatos combativos, que se organizam para colocar centenas de milhares de pessoas nas ruas e nas redes contra os desmandos. Não se desmanchou a força simbólica das centenas de Jéssicas (do filme Que horas ela volta) que chegaram às universidades questionando privilégios e assumindo a liderança das lutas feministas e pela educação pública. Não se desmanchou a disposição de enfrentamento e o voto de confiança na liderança de Lula, por representar um projeto de soberania e inclusão social, um projeto de classe, da classe trabalhadora, da esquerda em conflito com quem é privilegiado pelo sistema, sem negar este conflito. O próprio Lula deixou de ser paz e amor.

Os governos petistas fizeram melhorar a vida de grande parte da população, mas descuidaram-se do primeiro ensinamento do manifesto de fundação do PT:

“A mais importante lição que o trabalhador brasileiro aprendeu em suas lutas é a de que a democracia é uma conquista que, finalmente, ou se constrói pelas suas mãos ou não virá.”

Por isso, é preciso deixar de ilusões e passar a trabalhar para a construção do que chamamos de “poder popular”. Afinal, é das mãos de trabalhadoras e trabalhadores, mulheres, LGBT, negros e negras, pessoas com deficiência e todo seguimento subalterno de nossa sociedade que se construirão as ferramentas com que lutaremos e defenderemos um projeto democrático e popular.

Marcel Farah
Educador Popular
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