08 Ago 2019 | domtotal.com

A barrigada da semana

A verdade é que o furo de reportagem deixou de ser prioridade nas redações.

Grandes jornais deram pouco destaque à operação da PF contra o PCC.
Grandes jornais deram pouco destaque à operação da PF contra o PCC. (Divulgação/Polícia Federal)

Por Jorge Fernando dos Santos

Numa postagem no Facebook, na manhã de terça-feira (6), o jornalista Ramiro Batista informou sobre a operação da Polícia Federal contra o braço financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele chamou atenção para a “barrigada” da grande mídia – particularmente os jornais O Globo, Folha e Estado de S. Paulo –, que não teriam dado a devida atenção ao fato.

Durante a referida operação, foram cumpridos 30 mandados de prisão e outros 55 de busca e apreensão em várias cidades do Paraná e de São Paulo. Também foram bloqueadas 400 contas bancárias suspeitas de movimentar e lavar o dinheiro da maior organização criminosa do país.

Na opinião de Ramiro, que trabalhou no Estado de Minas e chefiou por vários anos a assessoria de imprensa da Assembleia Legislativa, “é uma omissão surpreendente (da imprensa) sobre a primeira pancada que pode abalar de fato os alicerces dessa tragédia nacional”, que é o crime organizado.

Há que se admitir que o jornalismo mudou, mas os jornais, com poucas exceções, não saíram da inércia burocrática. Impactados pelas inovações da internet, os grandes veículos ainda mantêm a empáfia de paladinos da notícia, ignorando os novos paradigmas do universo midiático.

Sem uma pauta original que priorize investigações e a análise da notícia, vários veículos limitam-se à cobertura dos tititis do mundo das celebridades e dos gabinetes políticos, pouco acrescentando às intrigas das redes sociais. Boa parte do noticiário de hoje resume-se a repetir o que já foi noticiado.

A alma do negócio

A verdade é que o furo de reportagem deixou de ser prioridade nas redações. Tanto que até inventaram a expressão “jornalismo investigativo”, algo pleonástico, já que a investigação deveria ser a alma do negócio. Não basta publicar releases e declarações oficiais para se fazer um bom trabalho. É preciso ir além da notícia.

Vale lembrar que, no auge dos processos da operação Lava-Jato, a imprensa raramente trouxe à baila novidades apuradas pelos repórteres em investigações autônomas paralelas às do Ministério Público. Na maioria dos casos, contentou-se em ecoar as conclusões oficiais.

Agora, tudo indica que os ventos mudaram para pior. Prova disso têm sido as reportagens sobre os vazamentos seletivos que visam desmoralizar a própria Lava-Jato. Em vez de investigar por conta própria, veículos como a Folha e a revista Veja divulgam no conta-gotas o material fornecido pelo site The Intercept Brasil.

Segundo a PF, o conteúdo foi surrupiado pelos ararahackers e receptado pelo americano Glenn Greenwald, via Manuela D’Ávila. Justamente por resultar de ação criminosa, não pode ser autenticado e, portanto, não tem valor legal. Na sociedade do espetáculo, o ativismo é mais um prego no caixão do velho jornalismo cansado de guerra.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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