14 Ago 2019 | domtotal.com

Mãe Abadia e água suja com a 22ª Romaria das Águas e da Terra

149ª Festa de Nossa Senhora da Abadia acontece na cidade de Romaria, no Triâgulo Mineiro.

22ª Romaria das Águas e da Terra do Estado de Minas Gerais acontecerá na cidade de Romaria.
22ª Romaria das Águas e da Terra do Estado de Minas Gerais acontecerá na cidade de Romaria. (Divulgação/ Santuário de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja)

Por Gilvander Moreira

Desde o dia 1º de agosto até 15 do mesmo mês, o município de Romaria, na região mineira do Alto Paranaíba se torna uma pequena Nazaré brasileira. Com 4 mil habitantes, a cidade que pertence a Arquidiocese de Uberaba acolhe a 149ª Festa de Nossa Senhora da Abadia.

Milhares de pessoas, imbuídas de muita fé, marcham 70, 80 ou até mais de 100 quilômetros para chegar aos pés da imagem da Mãe Abadia no santuário em Romaria. Muita gente que não vai a pé se faz altruísta dando apoio aos peregrinos. Pontos de apoio são organizados e uma rede de solidariedade se constitui, oferecendo água, pão, café, suco, aperto de mão, sorriso, oração etc. Enquanto caminham, os devotos vão rezando, meditando, refletindo sobre a vida e a realidade. Uns pagam promessas por graça alcançada; outros, simplesmente, agradecem à Mãe Abadia.

Antes de se tornar município, em 1967, a localidade se chamava Água Suja, um distrito que acolhia anualmente a famosa Festa de Nossa Senhora da Abadia. O nome faz referência à exploração de diamante na região, que acabava por sujar e contaminar as águas. Atualmente, imensas pilhas do rejeito dessa mineração se vêem ao lado da cidadezinha de Romaria, o que tem causado devastação ambiental: um córrego foi secado, quatro nascentes dizimadas, o lençol freático atingido, a falta d’água já se sente pelo povo e, pior, sua contaminação.

Entre os maiores clamores do povo estão três preocupações. A primeira é a falta de água tratada, que ainda não é oferecida pela prefeitura e nem pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). Do seu consumo e do exagero de agrotóxicos nas lavouras do agronegócio na região decorre a segunda preocupação, o adoecimento. A terceira é a devastação que a mineração está causando.

A devoção a Nossa Senhora da Abadia iniciou com um grupo de pessoas que se rebelou quando recrutadas para servir ao exército brasileiro na guerra do Paraguai. Por objeção de consciência, não aceitaram combater um povo irmão. De fato, segundo Eduardo Galeano, a guerra do Paraguai foi um “genocídio americano”. Ao contemplar a beleza da imagem da Mãe Abadia, a fé despertada gerou força interior para a rebeldia diante de um militarismo, vassalo dos interesses do Império inglês, utilizado para subjugar o povo paraguaio que cultivava a democracia.

Pe. Márcio Ruback é o reitor do santuário de N.S. da Abadia.Pe. Márcio Ruback é o reitor do santuário de N.S. da Abadia.Dia 11 de agosto, durante Missa Sertaneja, celebrada na praça diante do santuário da Mãe Abadia, com a participação das comunidades rurais do município e de setores da paróquia, foi feito o lançamento da 22ª Romaria das Águas e da Terra do Estado de Minas Gerais, que acontecerá em Romaria no dia 10 de novembro próximo. Seu tema será “Com a Mãe Abadia, as filhas e filhos e toda a natureza clamam em dores de parto!” e seu lema, “Das águas sujas, em Romaria, na luta pela terra e pelas águas, fontes de vida!”.

Após a realização de dezenas de romarias da terra no Triângulo Mineiro, pela primeira vez acontecerá a Romaria das Águas e da Terra em âmbito estadual na Arquidiocese de Uberaba. Serão anfitriões o arcebispo dom Paulo Peixoto e o padre Márcio Ruback, reitor do santuário de Romaria. O evento já está em processo. A imagem de são Francisco de Assis, patrono da romaria, está peregrinando por paróquias e comunidades da arquidiocese.

Nos meses de agosto, setembro e outubro, as comunidades arquidiocesanas, nos seus grupos de reflexão, serão convidadas a realizar seis encontros com roteiros bíblicos a partir do tema e do lema da 22ª romaria. Serão abordados assuntos como monoculturas, agronegócio, mineração, crise hídrica, devastação ambiental, agroecologia, agricultura familiar, uso abusivo de agrotóxicos e organização popular, imprescindível na resistência diante de tantas amputações de direitos trabalhistas, previdenciários e sociais. 

A romaria tem como objetivo pastoral refletir, discutir e celebrar com as comunidades cristãs que lugar sagrado não são apenas os santuários e as catedrais e nem só padre, freira, pastor, bispo ou papa. A terra é sagrada, mãe e fonte de vida. “Água, fonte de vida” foi o tema da Campanha da Fraternidade de 2004. De fato, o “espírito de Deus está nas águas”, permeia e perpassa as águas, conforme nos diz o segundo versículo da Bíblia. Portanto, se a humanidade continuar tratando terra e água como mercadorias, estará também acelerando o curso do fim da vida humana sobre o planeta, nossa única casa comum.

Nas ondas da evolução, o Deus da vida criou toda a natureza para ser um jardim e quis que fôssemos jardineiros e cuidadores da terra e das águas. O Paraíso terrestre não pode ser só uma coisa do passado, é preciso ser reconstruído. Entretanto, o sistema capitalista – máquina de moer vidas – insufla nas pessoas falsos valores, tais como o egoísmo, a concorrência e a acumulação, o que reduz a terra e as águas a mercadorias e hipertrofia o direito de propriedade em detrimento do direito de posse dos territórios para usufruto.

Realmente, com a instituição da propriedade privada dos meios de produção, instaurou-se um processo de confronto na dependência entre os seres humanos, que passaram a viver em condições desiguais, forçados à divisão do trabalho. No Discurso sobre a origem e fundamento da desigualdade entre os homens, Rousseau (1999) compreende a propriedade privada como causa de destruição da liberdade social e fonte de relações sociais de dominação. Para Marcos Pereira dos Santos, interpretando Rousseau, “a propriedade privada introduz a desigualdade entre os homens, a diferença entre o rico e o pobre, o poderoso e o fraco, o senhor e o escravo, até a predominância do mais forte. O homem é corrompido pelo poder e esmagado pela violência” (SANTOS, 2013, p. 5).

“O primeiro que, tendo cercado um terreno, atreveu-se a dizer: isto é meu, e encontrou pessoas simples o suficiente para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil” (ROUSSEAU, 1999, p. 203). Essa frase lapidar de Rousseau demonstra o verdadeiro início da propriedade mercantil da terra – capitalismo – através do processo de cercamento (enclosure, em inglês) de terras comuns. “Os camponeses, assim privados de terras e não mais conseguindo se reproduzir enquanto tais, vieram a se tornar assalariados rurais ou urbanos” (PORTO GONÇALVES, 2004, p. 221), gerando uma sociedade capitalista, sociedade de classes com interesses antagônicos.

“A terra deixava de ser uma provedora de alimento para ser uma reprodutora de capital” (MARÉS, 2003, p. 26). Ela não mais seria espaço da História, dos remédios, da vida dos seres humanos e de todos os seres vivos da biodiversidade. “A transformação da terra em propriedade privada foi um processo teórico, ideológico contrário à realidade, à sociedade e aos interesses das pessoas em geral, dos grupos humanos e dos povos, porque todos dependem da terra para viver” (MARÉS, 2003, p. 48). 

Oxalá, sob a inspiração e proteção da Mãe Abadia, a mística e a espiritualidade da 22ª Romaria das Águas e da Terra de Minas Gerais cultivem a rebeldia das primeiras pessoas que acolheram a imagem de Nossa Senhora e com ela encontraram força para não ser cúmplices do genocídio americano que foi a guerra do Paraguai. Que elas contribuam no revigorar das forças vivas da sociedade, a fim de de resistirem aos projetos socioambientalmente devastadores.



Referências 

MARÉS, Carlos Frederico. A função social da terra. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Editor, 2003. 

PORTO GONÇALVES, Carlos Walter; CUIN, Danilo Pereira; LEAL, Leandro Teixeira; NUNES SILVA, Marlon.  Geografia da riqueza, fome e meio ambiente: pequena contribuição crítica ao atual modelo agrário/agrícola de uso de recursos naturais. In: OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de; MARQUES, Marta Inez Medeiros (Orgs. ). O Campo no século XXI: território de vida, de luta e de construção da justiça social. São Paulo: Casa Amarela e Paz e Terra, p. 207-253, 2004. 

ROUSSEAU, Jean Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Nova Cultural, 1999.



Os vídeos, abaixo, ilustram o texto acima.

1 - Vem aí a XXII Romaria das Águas e da Terra de MG/Arquidiocese de Uberaba/1ª Reunião/11/2/2019


2 - Rumo à XXII Romaria das Águas e da Terra/MG - 4ª Reunião - Cidade de Romaria, MG - 30/4/2019.


3 - Homilia Dom Paulo Peixoto/Celebração/Lançamento/XXII Romaria das Águas e da Terra MG - 18/5/2019


4 - Celebração/Lançamento da XXII Romaria das Águas e da Terra/MG/Ato Penitencial/18/5/2019

Gilvander Moreira
é frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte, MG, autor de livros e artigos.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas