24 Ago 2019 | domtotal.com

Profecia, memória perigosa

Atualmente, no Brasil, temos uma realidade política difícil que favorece a desigualdade social, a marginalização dos povos indígenas, das comunidades negras e de todos os mais pobres.

Retomar agora o diálogo com a humanidade é mais exigente do que exige a capacidade de interpretar os sinais dos tempos atuais e escutar os apelos e clamores do mundo dos pobres.
Retomar agora o diálogo com a humanidade é mais exigente do que exige a capacidade de interpretar os sinais dos tempos atuais e escutar os apelos e clamores do mundo dos pobres. (Reprodução)

Por Marcelo Barros

Nessa semana, no Brasil, as comunidades cristãs e as pessoas que buscam a justiça lembram com saudade de três bispos que exerceram sua missão de modo profético e nos deixaram no mês de agosto. No dia 27, celebramos o 20º aniversário da partida de dom Helder Câmara (1999), arcebispo emérito de Olinda e Recife, profeta da não violência e da ação justiça e paz. Sete anos depois, (2006), na mesma data, partiu dom Luciano Mendes de Almeida (2006), arcebispo de Mariana (MG), considerado pai dos pobres e que, com sua sabedoria, ajudou muito a Igreja Católica na América Latina. Na mesma data, em 2017, falecia, em Belo Horizonte, dom José Maria Pires, ex-arcebispo de João Pessoa e pioneiro da pastoral das comunidades afro-descendentes no Brasil.

Esses profetas viveram e atuaram em tempos difíceis de um Brasil sob ditadura militar e dentro de uma Igreja Católica, dominada pelo conservadorismo e pela tendência de centralização autoritária.

Atualmente, no Brasil, temos uma realidade política difícil que favorece a desigualdade social, a marginalização dos povos indígenas, das comunidades negras e de todos os mais pobres. Do outro lado, em Roma, na coordenação das Igrejas de comunhão católico-romana, temos o papa Francisco, que propõe o modelo de uma Igreja Sinodal e a valorização das igrejas locais. 

A esses bispos profetas, não teria sido necessário o papa Francisco pedir que fossem à periferia e tornassem a Igreja pobre e dos pobres. Eles já viviam isso por convicção de fé e por terem sido confirmados nesse caminho pelo Concílio Vaticano II e pela conferência latino-americana de Medellín (1968). Dom Luciano se tornou bispo depois do Concílio. Dom José Maria foi ordenado bispo durante o Concílio, mas assumiu a arquidiocese de João Pessoa dois anos depois do Concílio (1967). Durante o Concílio, Dom Helder liderou um grupo de mais de 40 bispos que, no dia 16 de novembro de 1965, se reuniu em Roma e assinou um compromisso de viver como pobres e ajudar a Igreja a se inserir no meio dos pobres como igreja serva, pobre e missionária. empobrecidos.

Há mais de seis anos, o papa Francisco se tornou bispo de Roma. Ele revalorizou os princípios fundamentais da renovação eclesial do Concílio Vaticano II: o caráter de Igreja particular de cada diocese, a responsabilidade de todos os bispos junto com o papa pela Igreja Universal e a necessidade da Igreja retomar o diálogo amoroso e humilde com a humanidade, que, há 60 anos, o papa João XXIII iniciou e que, a partir do final dos anos 1970, foi interrompido.

Retomar agora o diálogo com a humanidade é mais exigente do que exige a capacidade de interpretar os sinais dos tempos atuais e escutar os apelos e clamores do mundo dos pobres. Para isso, é preciso uma coragem profética que dom Helder Câmara, dom Luciano Mendes de Almeida e dom José Maria Pires tiveram. A eles, o papa Francisco não precisaria pedir que se libertassem do clericalismo. Eles se fizeram irmãos do povo e se viam como pessoas comuns. Junto a outros bispos do seu tempo, souberam superar preconceitos e dialogar com a parte da humanidade que procura a transformação social e tem fome e sede de justiça e de um mundo mais igualitário e livre.

Na história, muitas vezes, a ideia de transformação social esteve ligada a ódio, violência e luta armada. Hoje, precisamos resgatar a meta de uma revolução social e política baseada em valores humanos e em uma nova ética. Essa revolução deve radicalizar a democracia, tornando-a mais verdadeira e profunda. Toma a educação como tarefa prioritária para transformar o mundo e, principalmente, deve partir dos mais pobres. Por isso, valoriza as culturas indígenas e negras e se solidariza a todas as forças que trabalham pela transformação social da América Latina e Caribe.

Quem é cristão participa desse processo, fazendo a memória perigosa dos nossos profetas e profetizas. Figuras como as de dom Helder Câmara, dom Luciano Mendes de Almeida e dom José Maria Pires nos animam nesse caminho e nos lembram o que escreveu Paulo aos romanos: “Não se conformem com esse mundo, mas o transformem pela renovação de suas mentes” (Rm 12, 1).

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).
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