23 Ago 2019 | domtotal.com

Eu sei que você sabe que eu não sou ideólogo

A educação não é neutra e está conectada com uma visão de mundo, com um projeto político para a sociedade.

O sistema educacional contribuiu e continua contribuindo, no limite para a continuidade do sistema desigual e excludente em que vivemos.
O sistema educacional contribuiu e continua contribuindo, no limite para a continuidade do sistema desigual e excludente em que vivemos. (Pixabay)

Por Marcel Farah

Dos anos 1960 e 1970 em diante se fortaleceu uma perspectiva de educação na América Latina e outros continentes periféricos que fazia a crítica da crítica.

Além da crítica, como tradicionalmente abordada pelos movimentos de esquerda, que questionava a normalidade de um sistema mundo excludente e desigual, injusto e, por vezes, assassino, o movimento de educação popular passou a criticar as práticas educacionais que reproduziam a dominação dentro das organizações que lutavam contra o sistema. Incluindo as organizações de esquerda. E com isso revolucionou as práticas revolucionárias.

A educação popular organizou-se em torno de princípios que podem, telegraficamente, ser assim organizados:

Ter como ponto de partida do processo educacional, a realidade concreta da vida das pessoas. Os problemas sociais motivariam os temas de estudo como temas significativos. Ou seja, o tema da educação é a vida real.

A prática educativa deve estar contextualizada historicamente, enfatizando o passado, o presente e o futuro do momento e da realidade/tema estudado.

A educação não é neutra e está conectada com uma visão de mundo, com um projeto político para a sociedade. Qualquer prática é assim, portanto, o importante é desnudar a intencionalidade política que orienta cada processo educativo.

A intencionalidade política da educação popular relaciona-se com os oprimidos. Portanto, visa a superação das situações de opressão, visa fortalecer os instrumentos de luta e a conquista de direitos para os de baixo. Sendo assim, se relaciona com a crítica do sistema e com as correntes de pensamento anticapitalistas, como socialismo, anarquismo, comunismo, revolucionárias etc. Portanto, a educação deve expor seu sentido ideológico, não negá-lo.

Superação da perspectiva positivista da relação sujeito e objeto, para uma relação sujeito e sujeito.

Superação da dicotomia entre conhecimento científico e popular.

Compromisso com a emancipação popular.

Este arcabouço teórico e prático contribuiu com a formação das principais ferramentas de luta da classes trabalhadoras brasileiras surgidas na década de 1980, nominalmente, o Partido dos Trabalhadores, a Central Única dos Trabalhadores e o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra.

Contudo, esta educação, baseada em uma metodologia emancipatória, nunca chegou a ser predominante, e a educação, no Brasil, mesmo nos governos petistas não superou os marcos mercadológicos e a influência das grandes empresas do ramo.

No mesmo sentido, o sistema educacional contribuiu e continua contribuindo, no limite para a continuidade do sistema desigual e excludente em que vivemos.

Assim, não tem cabimento se falar em escola sem partido, doutrinação da esquerda, ou mesmo marxismo cultural na educação.

A doutrinação de direita arraigada em nosso sistema educacional nunca foi superada, no máximo amenizada. E a luta da educação popular sempre foi contra a doutrinação, seja de direita seja de esquerda.

Afinal, como disse Francisco Weffort prefaciando o livro Educação como prática da liberdade, de Paulo Freire – “A compreensão desta pedagogia em sua dimensão prática, política ou social, requer, portanto, clareza quanto a este aspecto fundamental: a ideia de liberdade só adquire plena significação quando comunga com a luta concreta dos homens por libertar-se.”

Para essa frase ficar perfeita, só falta acrescentar as mulheres à luta concreta por libertar-se.

Marcel Farah
Educador Popular
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