31 Ago 2019 | domtotal.com

A vida em primeiro lugar

Falar em grito é optar por comunicação. É preciso reavaliar quem grita e para quem se grita. É preciso de fato dar voz e vez aos mais pobres e excluídos.

Falar em grito é optar por comunicação. É preciso reavaliar quem grita e para quem se grita. É preciso de fato dar voz e vez aos mais pobres e excluídos.
Falar em grito é optar por comunicação. É preciso reavaliar quem grita e para quem se grita. É preciso de fato dar voz e vez aos mais pobres e excluídos. (Pixabay)

Por Marcelo Barros

“A vida em primeiro lugar” continua sendo o horizonte que dá sentido ao tema fundamental do 25º Grito dos Excluídos, que acontece nessa semana e especificamente, em todo o Brasil, nesse 7 de setembro. Nesse ano, esse grito em favor da vida se concretiza em uma denúncia que partiu do papa Francisco, ao dizer aos movimentos sociais: Esse sistema mata! .

A articulação de pastorais e movimentos sociais traduz isso ao colocar no cartaz desse 25º  Grito a voz de todo o povo pobre nas diversas regiões do país: “Esse sistema não vale. Lutamos por justiça, direitos e liberdade”. A intenção dos que coordenam nacionalmente o Grito dos Excluídos é que nesse 25º ano se possa:

1– resgatar o projeto que deu origem e sentido ao Grito dos Excluídos.

2 – apontar caminhos a seguir nesse momento atual, tão difícil para o nosso país.

Falar em grito é optar por comunicação. É preciso reavaliar quem grita e para quem se grita. É preciso de fato dar voz e vez aos mais pobres e excluídos. Infelizmente, grande parte de nosso povo pobre nem tem consciência de ser excluído e não se interessa por gritar. Por isso, tão importante quanto o ato que se realiza a cada 7 de setembro, é o processo de formação e discussão com as bases que antecede o grito e que dura praticamente o ano inteiro. Significa dialogar com os movimentos sociais e, através deles, escutar as realidades que precisam ser denunciadas no Grito. E não basta tomar consciência delas. É preciso saber como lhes dar voz e fazê-las participar ativamente do Grito.

Evidentemente, quando se fez o primeiro Grito dos Excluídos, no ano de 1995, e os dias atuais, o Brasil mudou muito. É preciso perceber essas mudanças para ver em que devemos mudar. Os/as excluídos/as de hoje não são mais apenas os trabalhadores rurais e urbanos. Desde 1995 para cá, a massa de desempregados aumentou muito. E há ainda muitos excluídos pela cor de sua pele. Outros/as são excluídos/as por sua orientação sexual. Nesse ano, em várias regiões do Brasil, povos indígenas estão manifestando presença e gritando como vítimas de profunda exclusão social e humana.

Ao grito dos excluídos humanos, temos de expressar o grito incontido e mudo da mãe Terra agredida. Nesses dias, choramos a destruição progressiva e escandalosa da Amazônia. E não basta chorar. Apesar de o papa Francisco ter proposto um sínodo de bispos católicos do mundo inteiro para tratar da Amazônia, no próprio Brasil, muitos bispos e dioceses continuam alheios ao que está acontecendo. Quando se fala em “Vida em primeiro lugar”, até agora, muitos pastores católicos e grupos de Igreja se interessam apenas pela vida uterina e fazem passeatas pela vida contra o aborto. É preciso integrar no Grito dos Excluídos a voz dos povos da Amazônia e todos os seres vivos ameaçados pelas queimadas, pelo agronegócio e pelas mineradoras que destroem a região. Que esse Grito dos Excluídos seja o grito da terra e da natureza (criação de Deus) que, como diz o apóstolo Paulo, “geme e sofre como em dores de parto e conosco espera a libertação integral de nossas vidas” (Rm 8, 22 ss).

Atualmente, há certo consenso de que a concentração e a caminhada do Grito não podem mais ter o estilo único de comício político. A palavra deve ir além do discurso e tomar formas diferentes de arte, gestos e música. Precisa da participação de grupos artísticos, de profissionais do teatro, cantores/as e principalmente garantir um maior diálogo com a juventude, sobretudo, juventude de periferia. Ainda hoje, no Brasil, é uma tragédia o número de jovens de periferia, principalmente negros, assassinados impunemente.

O projeto do Grito é de fato dar voz e vez a essas pessoas e esses grupos marginalizados da sociedade. E ao possibilitar que gritem, que possam estar mais organizados em sua mobilização e saibam exatamente não apenas a situação que estão denunciando, mas também e principalmente, a organização social a que aspiram e desejam.

Apesar de ter nascido pela inspiração de setores das pastorais sociais católicas e com apoio da Conferência dos Bispos Católicos do Brasil (CNBB), a natureza do Grito dos Excluídos é ser laical e aberta a todos os movimentos sociais. O papa Francisco tem sido um exemplo de diálogo com representantes de diversos movimentos sociais para escutá-los e acolher a sua palavra. Quando, no final do encontro, o papa fala é para expandir a voz dos movimentos, apoiá-los e lhes dizer que ele se sente com eles e elas nesse caminho. É essa a proposta do Evangelho que mostra Jesus inserido na realidade do povo sofrido. Até hoje, ecoa a palavra do Evangelho que afirma sobre Jesus que ele  “tinha compaixão e vivia a solidariedade com o povo pobre porque eram como ovelhas sem pastor”( Mc 6, 34). 

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).
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