12 Set 2019 | domtotal.com

Politicas públicas: Amarrando cachorro com linguiça

Estamos nos igualando a nações latino-americanas e africanas onde abundam os narcotraficantes, os milicianos e a selvageria.

O Brasil estará de vez mergulhado no Quarto Mundo.
O Brasil estará de vez mergulhado no Quarto Mundo. (Reprodução)

Por Flávio Saliba

Embora tudo pareça depender mesmo da reforma da Previdência, não vejo sinais de preocupação com a geração de empregos emergenciais para os mais de 12 milhões de desempregados, ou melhor, de desesperados. A menos que ocorra algum milagre, o Brasil estará de vez mergulhado no Quarto Mundo, seguindo os passos, com sinais ideológicos trocados, da nossa vizinha Venezuela. 

Não se trata de alarmismo e, sim, da constatação de fatos como a emigração em massa de brasileiros ricos e profissionais qualificados. Conto às dezenas os filhos de amigos enviados ao exterior para estudar e ficar por lá. Na verdade não conheço uma família que não tenha filhos ou parentes vivendo no exterior. Nosso capital social está se esvaindo. Estamos nos igualando a nações latino-americanas e africanas onde abundam os narcotraficantes, os milicianos e a selvageria. 

Trata-se de países que não lograram inserir-se adequadamente na nova economia mundial e apelam para todo tipo de atividade econômica ilegal. Quando muito exportam matérias primas, não agregam valor. 

Ainda que nossa economia estivesse crescendo a taxas razoáveis, o que definitivamente não é o caso, as economias desenvolvidas continuam crescendo a taxas superiores às nossas. Não há tempo para alcança-las, mesmo porque as rápidas inovações tecnológicas, além de gerar níveis alarmantes de desemprego mundo afora, nos transformam, quando muito, em meros consumidores de seus produtos.  Numa hipótese otimista poderemos nos incluir, no futuro, entre os países de renda média, com bons níveis de educação e acesso à saúde de qualidade. Mas, por enquanto, nem isso se vislumbra no horizonte.

Pelo andar da carruagem teremos que conviver com os rachas de filhinhos de papai a 200 quilômetros por hora, com os avanços de sinais, os atropelamentos e caminhões pilotados por drogados. A segurança pública ficará a cargo do salve-se quem puder numa espécie de Cancún armada até os dentes. O meio-ambiente será protegido pelos amantes da caça e cães amarrados com linguiça. Quanta imaginação, quanto esforço para tirar o país do atoleiro!

Não sou contra o porte de armas por produtores rurais  que comprovem a posse legal da terra. O resto da pauta, no entanto, parece montada para agradar jovens amantes de filmes de ação e a imensa gama de motoristas do sexo masculino que não suporta multas por desobediência às leis de trânsito. Se há abusos na cobrança de multas, que sejam corrigidos.

Não há país do mundo onde a civilidade no trânsito não tenha sido precedida por uma boa dose de repressão: uso obrigatório de cintos de segurança, proibição de conduzir veículos sob efeito de álcool e um vasto conjunto de regras, que  desobedecidas resultam em penalidades mais, ou menos, duras. Tente infringir as leis de trânsito nos Estados Unidos, país tão admirado pelo nosso presidente da República.  

Flávio Saliba
Formado em Ciências Sociais pela UFMG (1968), Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris (1980), Pós-doutorado na Berkeley University (1994), Professor de Sociologia da UFMG. Livros publicados: 'O diálogo dos clássicos: divisão do trabalho e modernidade na Sociologia' (Ed. C/Arte, BH, 2004), 'História e Sociologia' (Ed. Autêntica, BH, 2007). Vários artigos publicados em revistas e jornais nacionais.
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