29 Ago 2019 | domtotal.com

De olho gordo na Amazônia

O que interessa aos países desenvolvidos são os minerais e a biodiversidade da floresta.

Temos o dever moral de defender a natureza contra aqueles que a devastam.
Temos o dever moral de defender a natureza contra aqueles que a devastam. (REUTERS/Bruno Kelly)

Por Jorge Fernando dos Santos

Bastou o governo brasileiro bater de frente com as ONGs internacionais para que o G-7 descobrisse focos de incêndio na floresta amazônica. É estranho que isso tenha ocorrido logo após o bate-boca do presidente Jair Bolsonaro com a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, que cortou o envio de recursos para o Fundo Amazônia.

Mais curioso ainda é o fato de a Alemanha ser apontada como o país que mais polui o ar na Europa, tendo em seu território grandes usinas termelétricas – movidas a carvão. Também a Noruega suspendeu a remessa de euros para o referido fundo. No entanto, um dos maiores poluidores de nascentes amazonenses é justamente uma empresa norueguesa.

Dizendo-se preocupada com a natureza, a mesma Noruega se destaca entre os campeões mundiais na caça à baleia. Vale lembrar que florestas nos EUA e na Europa pegam fogo quase todo ano, como ocorreu semana passada na ilha espanhola de Gran Canária. Em 2018, florestas canadenses arderam como nunca. Esta semana, parte da África e do Alasca estavam em chamas.

Também não podemos ignorar que a madeira contrabandeada do Brasil é vendida a países ricos, que se dizem preocupados com a proteção da floresta amazônica. Aliás, a primeira riqueza de Pindorama saqueada pelo homem branco foi justamente o pau-brasil, fartamente roubada pelos piratas franceses.

De fato, Bolsonaro sofre de verborragia crônica e não deveria recusar ajuda internacional para combater o fogo na Amazônia. Contudo, não é ele que está em jogo e sim a soberania nacional. Na guerra ambiental que se trava é preciso lembrar que o Primeiro Mundo nunca se preocupou com a fauna, a flora ou os quase 20 milhões de brasileiros que vivem na floresta. O que interessa aos países desenvolvidos são os minerais e a biodiversidade da região.

Interesse econômico

Em 1989, o senhor Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA e um dos maiores ativistas da causa ecológica, declarou que, “ao contrário do que os brasileiros acreditam, a Amazônia não é propriedade deles, ela pertence a todos nós”. Isso, por si só, comprova o olho gordo sobre as riquezas da maior floresta tropical do mundo. Declarações de estadistas como Mitterrand, Gorbatchov e John Major seguiram o mesmo raciocínio.

Alardeando os riscos de elevação dos oceanos devido ao suposto aquecimento global pelo CO2, o mesmo Al Gore comprou a peso de ouro uma bela mansão em Santa Barbara, Califórnia, com seis lareiras e vista para o Pacífico. A verdade é que boa parte do discurso ambientalista tem interesse econômico e não propriamente científico ou ecológico.

O Brasil já supera a China e os EUA na produção de carne. A pecuária nacional tem tudo para crescer ainda mais, chegando ao primeiro lugar do ranking liderado pela Índia. A briga pelo mercado internacional é acirrada. Isso é válido também para os produtos agrícolas. No entanto, a maior ameaça contra a Amazônia vem de grileiros, madeireiros e garimpos clandestinos.

Dados da Embrapa revelam que o Brasil é o país que mais preserva florestas nativas e áreas indígenas no mundo. A área protegida corresponde a cerca de 30% do território nacional, o que equivale à soma territorial de 15 países da União Europeia. Além disso, segundo a NASA, os agricultores utilizam para o plantio apenas 7,6% das terras brasileiras.

Temos o dever moral de defender a natureza contra aqueles que a devastam. Contudo, há que se admitir a exploração sustentável dos recursos naturais da Amazônia em benefício dos brasileiros. Pouco antes de morrer, em 2002, o sertanista Orlando Villas-Boas, um dos criadores do Parque Nacional do Xingu, já denunciava as intenções internacionais com relação à floresta brasileira. 

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Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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