30 Ago 2019 | domtotal.com

A resposta é o povo amazônia!

A questão é: vista de fora, a Amazônia é 'apenas' uma floresta gigantesca que contribui para equilibrar metabolismo do nosso planeta.

Não existe floresta intocada na Amazônia.
Não existe floresta intocada na Amazônia. (Victor Moriyama/AFP)

Por Marcel Farah

O aumento desmedido do fogo a consumir a floresta amazônica, com reflexos até sobre o céu da tarde da metrópole gigantesca, reacendeu a chama do debate ambiental.

Menosprezado pelo governo Bolsonaro, o meio ambiente volta a despertar corações sobre o “apocalipse iminente”. Mas, este governo eleito sobre os escombros da democracia brasileira, se apoia no agronegócio, para quem é interessante queimar mato para plantar capim.

De outro lado, há quem justifique a impopularidade de Bolsonaro somente pelas questões econômicas, que, por certo, derrubam a credibilidade do antipresidente, mas até a economia piora frente ao alarme de que hoje o Brasil está “pouco se lixando para a Amazônia”.

A questão é: vista de fora, a Amazônia é “apenas” uma floresta gigantesca que contribui para equilibrar metabolismo do nosso planeta. Mas, lá dentro encontra-se o povo da floresta, este sim, seu grande e legítimo guardião, como nos lembra o professor Carlos Walter Porto-Gonçalves¹.

Em artigo que foge da abordagem predominante no debate sobre o que está acontecendo com a floresta, Porto-Gonçalves começa relembrando Chico Mendes, como grande defensor da Amazônia, e como introdutor deste novo ator no debate, o povo amazônida.

Indígenas, seringueiros, uma extensa diversidade de capesinidades e outros povos extrativistas, que sabem como conviver e sobreviver na floresta, frente a seus intemperes e desafios, sem destruir a floresta, mas tocando-a profundamente. Não existe floresta intocada na Amazônia.

Conta-nos, o professor, que mesmo sendo habitada a cerca de 19 mil anos, conforme datações presentes na Amazônia colombiana, os 8 milhões de quilômetro quadrados que a floresta tem hoje, existem a apenas 13 mil anos. Ou seja, o povo da floresta está lá desde antes da floresta ser o que é hoje. A existência humana na Amazônia não é incompatível com a preservação, ou até com o crescimento da floresta como nos faz crer a via única de desenvolvimento capitalista que predomina em nosso país, desde a colonização.

Outro dado, levantado por Porto-Gonçalves, é que, enquanto 1 hectare de soja, plantado e tratado com alta tecnologia, intenso uso de adubos químicos e agrotóxicos, produz no máximo 5 toneladas de biomassa por ano; 1 hectare de floresta amazônica produz de 40 a 70 toneladas! Mas nosso modelo de desenvolvimento não vê isso, não sabe o que fazer com a produção da floresta, que não é tão facilmente transformada em commodities e vendida pelo seu valor de mercado como o grão soja. Por isso, é melhor pilhar o ambiente e destruir a floresta para continuar plantando soja ou criando gado, na visão do mundo agro.

Enfim, o professor mostra o quanto as soluções apresentadas para a questão amazônica, por virem de fora, não consideram o povo de lá. Tanto as soluções que querem a floresta em pé, para tudo dela transformar em mercadoria e lucro; quanto as anti-soluções que buscam desmatar para monocultivar, passando pela grilagem de terras feita por latifundiários, que desrespeita e impede as demarcação de terras pelos povos originários, e hoje tem seu representante na presidência da República.

Mais de 200 línguas indígenas são faladas na Amazônia, mas só se escuta as línguas oficiais dos países que detém parte de seu território. Como dizia Chico Mendes:

- A amazônia é nossa?

- Nossa de quem?

Afinal, o povo da floresta está fora deste debate hipócrita.

1Disponível em: https://esquerdaonline.com.br/2019/08/28/a-amazonia-e-nossa-de-quem-mesmo/

Marcel Farah
Educador Popular
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