04 Set 2019 | domtotal.com

Armai-vos uns aos outros

Protestantes, católicos, judeus, islâmicos crêem no mesmo Deus único. Só existe uma raça, a humana. Diante disso, como se pode ser intolerante?

Para Bolsonaro, comunistas deveriam ir para Venezuela ou Cuba, apenas por pensarem diferente.
Para Bolsonaro, comunistas deveriam ir para Venezuela ou Cuba, apenas por pensarem diferente. (Ueslei Marcelino/Reuters)

Por Carlos Brickmann

Faz mais de 500 anos, pouco depois da descoberta do Brasil. Na França, o governo católico perseguia os huguenotes, protestantes. Numa só noite, só em Paris, 3 mil protestantes foram assassinados, apenas pela religião (foi a Noite de São Bartolomeu). O líder dos huguenotes era Henrique de Navarra. Certo dia, ele foi informado de que herdaria o trono da França caso se convertesse ao catolicismo. Disse uma frase célebre, “Paris bem vale uma missa”, converteu-se, chegou ao trono. E deu liberdade religiosa aos huguenotes. Depois de mais de 30 anos de guerra, a França voltou a crescer.

Faz mais de 500 anos, mas a lição de que a tolerância é essencial ainda não foi aprendida. Há dias, um restaurante de palestinos refugiados da guerra na Síria foi atacado em São Paulo – parece que apenas por ser palestino. Um humorista, Gustavo Mendes, foi ameaçado de agressão em Teófilo Otoni por fazer piadas sobre Bolsonaro (só ameaças – mas porque ele saiu com escolta policial). Abra o blog de Caio Blinder, há pessoas que o odeiam por ser judeu e postam slogans antissemitas. Só no Brasil? Não, na França há atentados contra judeus e contra imigrantes muçulmanos. Em Londres, manifestantes contrários ao primeiro-ministro Boris Johnson sugerem que ele e seus seguidores sejam mortos em câmaras de gás, “como em Auschwitz”.

Protestantes, católicos, judeus, islâmicos creem no mesmo Deus único. Só existe uma raça, a humana. Diante disso, como se pode ser intolerante?

O Mal, espalhado

O Irã condena homossexuais à morte, nos EUA, Inglaterra e França, que guerrearam o nazismo, há nazistas. Há quem discrimine negros. No Brasil, alguns antibolsonaristas supõem que 53 milhões de fascistas votaram nele; e alguns bolsonaristas acham que quem é contra Bolsonaro é comunista. Para Bolsonaro, comunistas deveriam ir para Venezuela ou Cuba, apenas por pensarem diferente. Desconhecem a boa política: não fique tão perto que se transforme em adesista, nem tão longe que não possa reaproximar-se. O mundo vai mal, acreditando em loucuras. O Brasil da “solução mulata” de Silveira Sampaio, da abençoada miscigenação, vai aderir à loucura geral?

Os doidos em ação

Lembra daquele doido que outro dia tentou invadir o Congresso, quebrou as portas de vidro e teve de ser algemado? Há um vídeo dele na internet, em que promete dar uma facada mortal em Bolsonaro e matar ministros do STF. Precisa surgir alguém propondo trégua e tolerância. Ou vamos acabar mal.

Morro abaixo

A popularidade do presidente Bolsonaro está em queda, conforme as duas últimas pesquisas: pelo Datafolha, ele é reprovado por 38%, contra 29% que o apoiam (em julho, eram 33%, contra e a favor). O Atlas Político, citado pelo site O Antagonista, informa que a rejeição ao presidente ultrapassou os 50%, embora por pouco, pela primeira vez: 50,9%. A avaliação positiva, em junho, era de 50,3%. Em julho, de 46,2%. Agora, caiu para 42,9%.

Moro acima

Já o ministro da Justiça, Sergio Moro, mantém sua lenta ascensão, diz o Atlas Político. Está com imagem positiva para 51,7% dos eleitores. Em julho eram 51,4%. Em junho, 50,4%. Aparentemente, a divulgação das conversas entre Moro e procuradores da Lava-Jato não o prejudicou. Segundo a Paraná Pesquisas, 58,8% querem que ele fique no cargo, contra 34,3% contrários.

O risco do herói

Em público, Bolsonaro acostumou-se a desdenhar pesquisas, lembrando que previam que ele perderia o segundo turno contra qualquer adversário. Na prática, já começou a cortar as asas de Moro, dizendo que não prometeu nomeá-lo para o Supremo, chamando-o de “ingênuo” e lembrando que certos cargos são de livre nomeação do presidente, e não de ministro nenhum. Não há quem seja possível candidato à Presidência que deixe de ser atacado: João Doria e Luciano Huck foram apontados como beneficiários de empréstimos privilegiados do BNDES, para comprar jatos executivos da Embraer. Não é verdade: a beneficiária era a Embraer, que ganhava condições de vender seus jatos. E daí? Moro, se continuar em alta, pode ser a próxima vítima.

Dinheiro falta

A Capes, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, anunciou que, pelo Orçamento, só terá dinheiro para pagar metade das bolsas de pós-graduação em 2020 – sim, isso significa que teremos menos gente altamente preparada. O CNPq, Conselho Nacional de Pesquisas, anunciou que o dinheiro de suas 80 mil bolsas dura até o quinto dia útil de setembro.

Dinheiro abunda

Falta dinheiro para ciência e pesquisa, mas o Orçamento prevê aumento de 48% no Fundo Eleitoral, para pagar a campanha deles com nosso dinheiro. Isso significa que PT e PSL terão R$ 250 milhões, cada, em 2020. Faça as contas, caro leitor: seus rendimentos aumentam 48% de um ano para outro?

Carlos Brickmann
é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.
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