05 Set 2019 | domtotal.com

Mais uma vez Tarantino

Era uma vez em Hollywood reafirma a estética inconfundível do diretor.

Brad Pitt e Leonardo DiCaprio: duelo de interpretações no novo filme.
Brad Pitt e Leonardo DiCaprio: duelo de interpretações no novo filme. (Divulgação)

Por Jorge Fernando dos Santos

Em cartaz nos cinemas da cidade, o filme Era uma vez em Hollywood reafirma a estética inconfundível do diretor e roteirista Quentin Tarantino. Tendo ao fundo fatos reais que traumatizaram os Estados Unidos em 1969, a nova produção é estrelada por Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Al Pacino.  

DiCaprio interpreta Rick Dalton, ator alcoólatra de seriados de TV em plena crise e em busca de novos papéis. Pitt faz seu amigo, dublê e “quebra-galhos” Cliff Booth. O duelo de interpretações leva a crer que serão fortes candidatos ao Oscar. Pacino, que está a cara de Martin Scorsese, dá vida ao agente que trabalha para Dalton.

Como sempre, o nono filme de Tarantino tem tudo para agradar plateias pelo mundo afora. Mais uma vez o diretor cult, nascido no Tennessee em 1963, recria a atmosfera dos filmes B, com narrativa dinâmica, de cortes rápidos e com impressionante reconstituição de época. Alguns personagens são reais, entre eles Sharon Tate, Roman Polanski e Bruce Lee.

Outra característica que não poderia faltar são as citações, a começar pelo nome, inspirado em Era uma vez no Oeste e Era uma vez na América, sucessos de bilheteria do mestre Sergio Leone (1929-1989). Aliás, Sergio é o nome do diretor italiano com o qual Rick Dalton irá trabalhar em faroestes do tipo espaguete.

Trauma e revanche

Autor de sucessos como Cães de aluguel, Pulp fiction e Bastardos inglórios, Tarantino teve influências do violento Sam Pechinpah (1925-1984), diretor de películas que marcaram época, como Meu ódio será sua herança, Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia e Os implacáveis, com Steve McQueen (1930-1980) – ator retratado em Era uma vez em Hollywood.

O problema, dessa vez, é que as novas gerações certamente desconhecem a tragédia ocorrida em 9 de agosto de 1969, quando a atriz Sharon Tate (belamente interpretada por Margot Robbie), mulher de Polanski e grávida de oito meses, foi morta a facadas em sua casa por membros da Família Manson. Foi, certamente, a maior tragédia já ocorrida na meca do cinema.

Tarantino vai à forra e provoca uma espécie de catarse bem no estilo de Bastardos inglórios. Contudo, não demorou a sofrer patrulhamento ideológico. Seu colega Boots Riley postou no Twitter que ele errou ao descrever Charles Manson e seus seguidores como “hippies com crenças liberais”.

“A Família Manson era formada por supremacistas brancos declarados, que tentaram iniciar uma guerra racial com o objetivo de matar negros”, relembra Riley. Como mostram reportagens da época e a série Aquarius, da Netflix, o rapper que virou cineasta está corretíssimo.

No entanto, convém lembrar que Tarantino nunca pretendeu fazer filmes históricos ou politicamente corretos. Sua obra é fictícia e intertextual. Puro entretenimento sem outras intenções. No presente caso, seu objetivo foi retratar os áureos tempos de Hollywood, onde fantasia e devaneio sempre andaram de mãos dadas.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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