06 Set 2019 | domtotal.com

Uma fronteira no meio


(Pixabay)

Por Marcel Farah

Apenas iniciei um diálogo com José de Souza Martins em sua obra Fronteira: a degradação do Outro nos confins do humano, é já me coloquei a pensar intensamente no significado do Outro, nos dias em que vivemos. Falo deste Outro mesmo, com letra maiúscula.

A fronteira, como zona de expansão da nossa sociedade sobre outras sociedades, pré-existentes, em geral, implica um certo menosprezo pelo outro. Esse menosprezo justificou historicamente o massacre físico e cultural de indígenas desde 1500, também o massacre de camponeses pelo avanço do agronegócio, e por que não o massacre dos escravos africanos até o da juventude negra nas periferias urbanas, ou os incêndios de favelas nas grandes cidades, para a construção higienista da “cidade perfeita”, ou o massacre de mulheres, e gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transgêneros, e transexuais?

O caveirão a expulsar usuários de drogas moradores de rua das cracolândias baseia-se na mesma visão, de que o outro está no lugar errado, que não é dele. A lotação carcerária com pessoas pobres, da classe trabalhadora, tem o mesmo sentido.

Em um trecho de Homo deus, o best-seller de Yuval Noah Harari, pode-se dizer, de uma forma grosseira, que o autor ilustra o mundo como se os países fossem trens com vários vagões, e levanta a hipótese de que os rumos do desenvolvimento de nossa sociedade estaria a sugerir a eliminação dos vagões reservados ao “pobres”. Ou seja, o estágio atual de desenvolvimento capitalista, vai encontrando justificativas para eliminação de exército de pessoas não produtivas e pouco úteis ao sistema que se autonomiza. Ao contrário da utopia de que a tecnologia diminuiria a carga de trabalho para todas as pessoas distribuindo-a melhor, não, ela permitirá a eliminação por inutilidade ao sistema!

Me parecem visões complementares de como a eliminação do Outro, para ser operacionalizada, tem sido precedida por sua inferiorização, ao tornar o Outro, o sujo, o perigoso, o incivilizado, o desempregado, o inútil, a puta, o preto, o viado, o pobre.

Como, disse recentemente Veríssimo, é uma guerra contra “nós”, duro é saber exatamente quem somos “nós”.

Afinal, o essencial dessa guerra é transformar o “nós” no Outro. E para isso, nada melhor do que colocar uma fronteira bem no meio, bem na Presidência da República, entende?

Marcel Farah
Educador Popular
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