11 Set 2019 | domtotal.com

O oba-oba religioso é opressor: Primeira carta de João

O Mês da Bíblia de 2019 é dedicado ao estudo da 'Primeira carta de João'.

O autor da Primeira Carta de João exorta para a prática da Justiça e de tudo que alimenta uma fraternidade real.
O autor da Primeira Carta de João exorta para a prática da Justiça e de tudo que alimenta uma fraternidade real. (João Cruz/ Unsplash)

Por Gilvander Moreira

No Brasil atual, sem interpretação sensata e libertadora dos textos bíblicos, afundamos cada vez mais em fundamentalismos, moralismos e esquizofrenia religiosa. O caminho para resgatarmos a construção de uma sociedade justa, solidária, democrática e sustentável ecologicamente passa também pela leitura e interpretação da Bíblia a partir dos injustiçados.

Setembro é também mês da Bíblia, porque em seu trigésimo dia a Igreja celebra são Jerônimo. Ao traduzir a Bíblia do hebraico, aramaico e grego para o latim, que era a língua do povo durante o Império Romano, ele pensava que os texto precisavam ser democratizados, não podiam ser privatizados pelo clero. Em 2019, somos convidados a ler e refletir a partir da Primeira carta de João. Vamos chamar a atenção para alguns dos muitos raios de luz e de força divina que irradiam a partir desse livro bíblico.

“Quem comete pecado pertence ao diabo. (...) O Filho de Deus se manifestou para destruir as obras do diabo”, afirma a Primeira carta de João (3,8). Em um contexto povoado por religiões imperiais, mistéricas e pagãs, com muitas correntes de pensamento que justificavam as violências e a desigualdade social, compreender que as pessoas pertenciam a Deus ou ao diabo poderia soar como visão dualista. Isso faz caricatura da complexidade da realidade social. Atualmente ainda é pior, pois o contexto é de avalanche de neopentecostalismo, dentro e fora da Igreja Católica, com teologia da prosperidade e redução do cristianismo a autoajuda. 

“Anjos e diabos voando por todo lado”, dizem os que se interessam por desviar o foco das reais causas das doenças, injustiças e violências que abatem diariamente sobre o povo injustiçado. As igrejas neopentecostais, com grande inserção nos instrumentos midiáticos, usam e abusam do nome de Deus para surrupiar muito dinheiro desse povo aflito. Isso se faz via teologia da prosperidade, com missas e cultos de cura aparente, privatizando a fé e reduzindo o Senhor a um quebra-galho para resolver problemas pessoais que são frutos da superexploração promovida pelo capitalismo e pelos capitalistas.

No entanto, a Primeira carta de João alerta para ninguém cometer pecado, ou seja, não agir de forma pecaminosa. A carta enfatiza também que Jesus Ressuscitado, o Filho do Homem, destrói as obras do pecado. Diz "as obras" e não o diabo em si. O diabo (satã, em hebraico, e diabolos, em grego) não significa o poder do mal de forma abstrata como se existisse um deus que só maquina o mal, fazendo oposição ao Deus da Vida. Provavelmente a Primeira carta de João quer alertar que o espírito que é soprado pelo sistema opressor da época levava muitas pessoas a agir agredindo os irmãos e as irmãs e ferindo a fraternidade.

Etimologicamente a palavra diabolos significa o contrário de simbolos. Diabólico é tudo o que desune, desarticula e infernaliza as relações sociais e humanas. Por outro lado, simbólico é tudo o que une, congrega e irmana para a prática de uma fraternidade real e concreta nas relações sociais. O simbólico e o diabólico não estão fora da realidade histórica, estão em nós, como integrantes da condição humana, mas estão principalmente nas estruturas e instituições opressoras da sociedade.

Por exemplo, o Estado (Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário), o poder midiático, o sistema do capital, o agronegócio e as mineradoras ao reproduzirem as relações sociais que sustentam a desigualdade, estão sendo, na prática, satânicos e diabólicos. Por outro lado, os movimentos sociais populares e todas as forças vivas da sociedade, ao lutar por direitos sociais e alimentar a convivência comunitária, pautada em relações de igualdade, de equidade e de reciprocidade, estão sendo, na prática, simbólicos. Logo, não podemos ler a Primeira carta de João espiritualizando os conflitos reais.

Enfim, o autor da Primeira carta de João exorta para a prática da justiça e de tudo o que alimenta uma fraternidade real. E alerta contra os perigos de práticas que corroem a fraternidade social. No artigo Opositores de dentro – tratamento dos separatistas na Primeira epístola de João, publicado em 1988 na revista Concilium, n° 6, p. 758-767), Hans-Josef Clauck analisa que: “A descoberta da identidade e a segurança da identidade de um grupo ameaçado em sua existência vai fazer com que haja simultaneamente uma concentração numa comunicação interna altamente desenvolvida e um isolamento para fora”.

“Quem nasce de Deus não comete pecado” (1 Jo 3,9), diz a Primeira carta de João. Aqui, ela nos chama a atenção para a importância das nossas raízes e origem. Somos devedores dos nossos pais, avós e de todos os nossos ancestrais até chegar a Deus. A quarta palavra do Decálogo, a Carta Magna do povo da Bíblia, diz: “Honre seu pai e sua mãe” (Ex 20,12). Deus é nosso Pai maior e primeiro. Logo, não podemos esquecer essa origem.

Para as comunidades do discípulo amado não há como ser morno ou neutro: ou se é filho de Deus ou, filho do diabo. O critério é a prática da justiça justa, verdadeira. De forma enfática, repetindo várias vezes, o autor de Primeira carta de João alerta: “Toda pessoa que não pratica a justiça, isto é, que não ama o seu irmão, não é de Deus” (1 Jo 3,10). Entre praticar a justiça e amar, praticar a justiça vem em primeiro lugar.

O autor da Primeira carta de João associa umbilicalmente “amar o irmão” à prática da justiça. Com isso, afirma que amar o próximo não é questão só de querer bem ou de sentimento, mas implica prática da justiça. Não qualquer uma, mas aquela que liberta os injustiçados, o que passa pela superação de todo e qualquer preconceito e discriminação. Enfim, romper com o pecado implica praticar o amor integral.

Na Primeira carta de João há uma ênfase sobre praticar o amor (1 Jo 3,11-24). “Amar uns aos outros” (1 Jo 3,11.23) era a mensagem anunciada nas comunidades do discípulo amado desde a sua origem. Mais uma vez repete-se que amar é questão de prática. A carta recorda um paradigma bíblico: Caim matou seu irmão, porque suas obras eram más (1 Jo 3,12). O fratricida Caim “era do maligno” (1 Jo 3,12).

A falta de compromisso com os pobres era algo muito grave que estava acontecendo ao redor das comunidades e também estava seduzindo membros das comunidades. Os omissos são considerados homicidas (1 Jo 3,15.17). Por isso, a ênfase na prática da justiça e do amor ao próximo. O autor da Primeira Carta de João é incansável em reafirmar a necessidade do amor mútuo: repete-se três vezes (1 Jo 2,7-11; 3,11-24; 4,7 - 5,3) e insiste na sua prática.

Algo semelhante se observa atualmente com o povo das igrejas cristãs no Brasil. Fala-se em demasia sobre Deus, canta-se muito nos cultos e celebrações religiosas, louva-se à exaustão, porém, na prática, por exemplo, ao votar, eleva-se ao poder político pessoas fascistas e reprodutoras do sistema de desigualdade social. Isso é o cúmulo do absurdo e da injustiça. O autor da carta revela sua indignação diante da hipocrisia de muitas pessoas que se diziam filhas e filhos de Deus, seguidores de Jesus Cristo. A Primeira carta de João repudia o oba-oba religioso e os espiritualismos desencarnadores da fé cristã. Para as comunidades do discípulo amado, a dimensão social da fé é coluna mestra do Evangelho de Jesus Cristo.

“Não estranhem, irmãos – e irmãs –, se o mundo odeia vocês” (1 Jo 3,13), alerta a  Primeira carta de João. Com esta exortação, é óbvio que o autor consola a comunidade e não se refere ao mundo físico geográfico e nem a todas as pessoas do mundo. Com o termo, refere-se ao sistema imperial e o tipo de organização social que se baseia em relações de privilégio, desigualdade social, meritocracia e hierarquização. Para esse sistema se manter de pé e se reproduzir, é preciso que a ideologia dominante, seja ela política, econômica, religiosa ou cultural, não seja questionada por quem acredita na construção de um mundo com organização social pautada na justiça, ética, equidade, amor ao próximo e dignidade da pessoa humana.

As pessoas verdadeiramente cristãs incomodavam muito esse ‘mundo’ alimentador de desigualdade social. Por isso, eram odiadas. As comunidades do evangelista Mateus também experimentavam a incompreensão e a perseguição de seus membros. Por essa razão, ele animava seus integrantes, alertando: “Felizes os que – no bom caminho - são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de mim. Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa nos céus. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês” (Mt 5,10-12).


P.S.: Quem quiser adquirir o livrinho texto-base do mês da Bíblia, do Cebi-MG, de 2019 – A comunhão entre Deus e nós : uma leitura da Primeira carta de João – entrar em contato com a Secretaria Estadual Cebi-MG (Rua da Bahia, 1148 – Edifício Maleta, Sala 1.215, Centro, Belo Horizonte/MG, CEP: 60.160-011), pelo telefone: (31) 3222 1805 ou e-mail: secretariado@cebimg.org.br.

Gilvander Moreira
é frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte, MG, autor de livros e artigos.
+ Artigos
Comentários

Instituições Conveniadas