12 Set 2019 | domtotal.com

Como dizia Mario Puzzo

A história nos ensina que o crime e o poder político sempre foram próximos.

Senador Flavio Bolsonaro tenta desmobilizar a CPI da Lava Toga.
Senador Flavio Bolsonaro tenta desmobilizar a CPI da Lava Toga. (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Por Jorge Fernando dos Santos

O recente vazamento de conversa telefônica entre dois membros do PCC, na qual falam sobre “diálogo cabuloso” com o Partido dos Trabalhadores, não surpreende. Não depois do Mensalão, do Petrolão e das palavras da ex-senadora Heloísa Helena: “O PT é uma organização criminosa”.

Mas não é só o PT. A história nos ensina que o crime e o poder político sempre foram próximos. Desde que o mundo é mundo, corruptores de todo tipo compram autoridades, independentemente de ideologia ou regime de governo. No Brasil, existe uma espécie de cartel do mau-caratismo.  

Prova disso é que a Câmara Federal acaba de aprovar o aumento e o uso de recursos do Fundo Partidário na defesa de condenados da Lava Jato, no que se apelidou de “Lei Lula Livre”. Deputados de várias legendas votaram em causa própria, assim como na Lei do Abuso de Autoridade. O objetivo, em ambos os casos, é dificultar a ação da Justiça.

Convém lembrar que, no primeiro governo petista, líderes das Farc eram recebidos em Brasília com pompa e circunstância pelo então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Antigo sócio da direita, o crime organizado se tornara aliado da causa revolucionária desde sempre.

Estratégia de luta

Na Primeira Guerra Mundial, ao pedir apoio ao governo alemão para fazer a Revolução Socialista sob o compromisso de retirar as tropas russas do conflito, Lênin acreditou que os trabalhadores europeus seguiriam o exemplo dos camaradas do Leste. No entanto, aqueles que estavam nos campos de batalha preferiram lutar pelos “ideais burgueses”.

A esquerda logo aprendeu que o proletariado não é coeso. Os interesses de classe variam conforme o país, a cultura e as necessidades de cada povo. Seria preciso conseguir outros adeptos para a causa. Tempos depois, filósofos de esquerda, como Antonio Gramsci, apontaram o caminho.

Buscando a adesão de grupos até então menosprezados pelo Komintern, a militância se infiltrou nos movimentos sociais, universidades, mídia e meios artísticos. Se os ortodoxos perseguiam as minorias, a estratégia da New Left é cooptá-las. Não demorou para que o submundo entrasse na roda.

No Brasil foi sopa no mel. Enquanto as oligarquias se valiam da jagunçagem e da corrupção para defender seus interesses, os marginalizados pelo Estado adotavam cangaceiros, bicheiros e outros foras da lei como heróis. Intelectuais, por sua vez, se especializaram em retratar bandidos como vítimas sociais ou pastiches de Robin Hood.

Comando Vermelho

Nos cárceres da Ilha Grande, durante o regime militar, ex-guerrilheiros ensinaram a presos comuns como se organizarem em favor do coletivo. Essa foi a gênese do Comando Vermelho, primeira grande organização criminosa do Rio de Janeiro.

Pouco depois, dissidências do grupo criaram o Terceiro Comando e outras quadrilhas do mesmo quilate. À margem da lei, surgiriam mais tarde as milícias formadas por ex-policiais sob as bênçãos do Estado, bem como o PCC, que, a exemplo das Farc, alimenta pretensões de se tornar um partido.

Não é para menos. Afinal, políticos têm costas quentes e quase sempre escapam dos rigores da lei. A turma do “deixa que eu solto” do STF que o diga. O fato de o ministro Dias Toffoli ter blindado Flávio Bolsonaro e demais investigados pelo Coaf é outra prova disso. Em pagamento pelo favor, o senador tenta desmobilizar a CPI da Lava Toga.

Por sua vez, ainda à frente da PGR, a procuradora Raquel Dodge livrou Rodrigo Maia e o irmão de Toffoli das garras da Lava Jato. Por tudo isso e mais um pouco, podemos dizer que a máxima do escritor Mario Puzzo continua atualíssima no Brasil: “A política e o crime são a mesma coisa”.   

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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