13 Set 2019 | domtotal.com

O que temos a ver com as eleições internas do PT?

O desafio de se tornar líder da oposição ao governo Bolsonaro e da esquerda brasileira tem como condição que o partido recupere a vitalidade de sua democracia interna.

Apesar de curioso, esse efeito resulta da postura “vacilante” do PT em relação a temas centrais, como a reforma da Previdência.
Apesar de curioso, esse efeito resulta da postura “vacilante” do PT em relação a temas centrais, como a reforma da Previdência. (Paul Childs/Reuters)

Por Marcel Farah

Dia 8 de setembro foram realizadas as eleições internas do Partido dos Trabalhadores, cujo lema é #LulaLivre. O maior partido do Brasil e principal força da esquerda brasileira, assim como seu funcionamento interno, tem muito a dizer sobre o estado da arte da esquerda como um todo.

Primeiramente, dizer que o PT é o maior partido da esquerda não quer dizer que automaticamente seja a organização a liderar as forças de esquerda hoje. Portanto, não é automático pensar que lideraria a oposição ao governo Bolsonaro.

O grande tamanho do partido é uma ralidade institucional também, principalmente pelo número de mandatos parlamentares e administrações dirigidas por ele. Contudo, a esquerda como um todo encontra-se em certo deficit de liderança. 

Apesar de curioso, esse efeito resulta da postura “vacilante” do PT em relação a temas centrais, como a reforma da Previdência. Essa vacilação advém das opções que o partido adotou nas últimas duas décadas, que transformaram o partido em uma gigantesca estrutura burocrática, que gradativamente tem perdido seu impulso militante e o horizonte de construção de uma sociedade socialista.

As eleições internas ainda não estão finalizadas, mas já se contabilizam mais de 300 mil votantes, de um universo de mais de 2 milhões de filiados e filiadas. Dos votos apurados, a chapa da maior tendência do partido, a Construindo um Novo Brasil, detém cerca de 50% dos votos, frente outras sete chapas.

A diversidade de chapas a concorrer pela liderança do partido obscurece o que tem ocorrido, mas é possível afirmar que a principal disputa existente hoje passa por impedir que a maior corrente interna obtenha maioria absoluta na composição das instâncias deliberativas. Dessa disputa, que vem se repetindo há algum tempo nas eleições internas, depende a retomada de um processo de reorganização do partido em bases militantes e mais assumidamente de esquerda, ou seja, socialista.

O desafio de se tornar líder da oposição ao governo Bolsonaro e da esquerda brasileira tem como condição que o partido recupere a vitalidade de sua democracia interna. Para isso é preciso evitar que haja maiorias prévias, e que as instâncias deliberativas internas efetivamente funcionem.

Portanto, é essencial para a esquerda como um todo estar atenta às eleições do PT, por mais que o objetivo imediato de diversos grupos de esquerda seja superar o Partido dos Trabalhadores, o objetivo mediato de transformar a realidade para melhor, depende da superação da mencionada vacilação. Em outras palavras, para enfrentar os retrocessos, precisamos de partidos de esquerda que não façam políticas de conciliação, ou se escondam sob tons moderados, como se a radicalidade fosse prejudicial, e não o neoliberalismo, a desigualdade, o desmonte do Estado e a mafiosidade do atual governo.

As eleições internas do PT revelam para a esquerda que, em tempos de guerra, a esperança é vermelha.

Marcel Farah
Educador Popular
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