18 Set 2019 | domtotal.com

É preciso resistir para existir: 1ª carta de João

É impossível ser autêntico seguidor de Jesus Cristo e ser cúmplice do capitalismo, que é uma máquina satânica e diabólica de moer vidas.

A 'Primeira carta de João' ensina a resistir.
A 'Primeira carta de João' ensina a resistir. (Chloe S./ Unsplash)

Por Gilvander Moreira

Estamos em setembro, mês da Bíblia. Em 2019, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e as Pastorais Sociais – Igreja que faz Opção pelos Pobres – nos convidam para refletirmos a partir da Primeira carta de João, no Segundo Testamento bíblico.

Vamos focalizar aqui alguns dos seus muitos raios de luz. Por exemplo, a Primeira carta de João afirma de forma altaneira: “Quem ama o irmão e a irmã não morre” (1 Jo 3,14-15), passa pela morte, mas ressuscita e vive para sempre. Ao contrário, quem não ama o próximo e não pratica a justiça já está morto. Aqui percebemos que era presente nas comunidades do discípulo amado a fina flor da teologia política refletida no livro da Sabedoria – o último livro do Primeiro Testamento bíblico, escrito por volta dos anos 50 a 30 antes da era cristã.

O sábio autor do Livro da sabedoria enfatiza um tipo de fé revolucionária que carrega a seguinte convicção: os justos viverão para sempre e os injustos serão aniquilados. “As pessoas injustas se tornarão para sempre cadáveres desonrados e objetos de zombaria entre os mortos [...] e a memória delas desaparecerá” (Sb 4,19). Ao contrário, as pessoas justas, mesmo que tenham vida curta, “quando morrem, condenam os injustos que continuam a viver” (Sb 4,16).

Assim acontece com todos os oprimidos e injustiçados: fazem e permanecem na história os que são justos e militam na defesa da justiça, no sentido da construção do bem comum para todos sem nenhuma discriminação ou privilégio. “Os justos vivem para sempre” (Sb 5,15), assevera o sábio autor da Sabedoria, ao fazer teologia política.

“Amar implica doar a vida pelos outros” (1 Jo 3,16), enfatiza a Primeira carta de João. “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão...”, cantam as CEBs, inspiradas aí. Quem é egocêntrico não se faz solidário a quem está passando necessidade e não luta por justiça profunda, não está amando a Deus. Impossível amá-lo se não se ama o próximo. Dizer que ama, mas só com palavras e com a língua, é conversa fiada. “Ame com obras e de verdade” (1 Jo 3,18), recomenda o autor da Primeira carta de João.

Segundo a carta, para praticar o amor é preciso saber discernir entre o justo e o injusto (1 Jo 4,1-6).  1 Jo 2,29-4,6 termina exortando as comunidades do discípulo amado a discernir e não cair nas armadilhas dos opressores, nem nas ciladas dos falsos profetas. Um critério básico é sugerido: fala de Deus verdadeiramente quem aceita Jesus Cristo encarnado (1 Jo 4,2) e histórico. Não é mensageiro autêntico de Jesus Cristo quem nega e não aceita o Jesus histórico, que viveu consolando os aflitos, incomodando os opressores e, por isso, foi condenado à morte pelos podres poderes da política, da economia e da religião.

Quem volatiliza Jesus Cristo, desencarnando-o e espiritualizando sua práxis e seu ensinamento, é falso profeta, pastor e sacerdote. Não é verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, é anticristo (1 Jo 2,18), opositor e mentiroso (1 Jo 4,3.6). O espírito da verdade gera vida e o espírito do erro gera morte. Mais uma vez, a Primeira carta de João demonstra sintonia com o quarto Evangelho ao afirmar que a verdade liberta (Jo 8,32) e a mentira mata.

Eis um critério para discernir entre o que é verdade ou erro/mentira: Todo tipo de sistema político e econômico, religião, pensamento ou proposta que não esteja em sintonia com a prática e o ensinamento de Jesus não vem de Deus. Logo, se não gerar vida e respeito para todos não está em conformidade com o seu Evangelho.

Para dizer em uma linguagem da atualidade latinoamericana, praticar a justiça querida e defendida pelas comunidades do discípulo amado implica ser justo e ser ativista na construção da sociedade do bem viver e conviver. Mas o que é isso? Segundo Alberto Acosta: “O conceito de bem viver parte do princípio de que o fundamento para a vida sustentável e equilibrada como meio necessário para garantir dignidade e sobrevivência à espécie humana e do planeta são as relações de produção autônomas, renováveis e autossuficientes. O bem viver também se expressa na articulação política da vida, no fortalecimento de relações comunitárias e solidárias, assembleias circulares, espaços comuns de sociabilização, parques, jardins e hortas urbanas, cooperativas de produção e consumo consciente, comércio justo, trabalho colaborativo e nas diversas formas do viver coletivo, com diversidade e respeito ao próximo” (ACOSTA, 2016, p. 15-16).

Importante ressaltar que “respeito ao próximo”, atualmente, não inclui apenas as pessoas, mas também todos os seres vivos. Nós, humanos, somos os animais que mais dependem dos outros seres vivos. Sem justiça ambiental não pode haver justiça de nenhum tipo: nem social, agrária, urbana ou religiosa.

A justiça querida pelo Deus das comunidades do discípulo amado não cai pronta do céu, não se constrói de cima pra baixo, nem de fora pra dentro. Antes, ela se constrói quando os explorados se reconhecem como tal e, irmanados, em comunhão, lutam coletivamente para construir caminhos de libertação, conforme nos diz tão bem Thiago de Mello: “As colunas da injustiça sei que só vão desabar quando o meu povo, sabendo que existe, souber achar dentro da vida o caminho que leva à libertação”.

A justiça querida pela Primeira carta de João passa pela superação da ‘injustiça agrária’, uma avalanche colossal de conflitos e violências que abatem o campesinato brasileiro, imposta pelo sistema do capital e agronegócio. Este usa e abusa da propriedade capitalista da terra, reproduzindo de forma crescente a concentração fundiária no país e a consequente expropriação territorial dos camponeses, indígenas e quilombolas. Disso se segue a expulsão sua para as periferias das cidades e, às vezes, o seu aniquilamento.

A ideia do ‘Deus justo’ deve nos comprometer com a emancipação humana, o que passa pela construção de uma sociabilidade que supere as relações sociais do capital, em que todos os seres vivos sejam respeitados e ninguém seja explorado e injustiçado. É impossível ser autêntico seguidor de Jesus Cristo e ser cúmplice do capitalismo, que é uma máquina satânica e diabólica de moer vidas. O mundo capitalista odeia as pessoas verdadeiramente cristãs e as persegue.

Para as pessoas exploradas conquistarem a justiça querida pelo Deus que é justiça, é preciso resistir para existir. Importa deixar claro que resistir não é violência, é legítima defesa. Diante de qualquer tirania e de um Estado violentador, vassalo do sistema capitalista, que sempre tritura vidas e pratica injustiças, é dever das pessoas resistir diante das opressões perpetradas contra os empobrecidos, os preferidos de Jesus e do Deus da Vida. Em uma sociedade desigual, com tanta violência institucional e empresarial, com tanta alienação religiosa, fazer desobediência civil, econômica, política e religiosa é um caminho a ser seguido por nós, discípulos e discípulas de Jesus, o rebelde de Nazaré. Enfim, essa é uma leitura que fazemos hoje da Primeira carta de João: mensagem libertadora diante de tantos espiritualismos e desencarnações da fé cristã, atualmente.

 

Referências Bibliográficas

ACOSTA, Alberto. O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Ed. Elefante, 2016.

CLAUCK, H. Opositores de dentro: Tratamento dos separatistas na primeira epístola de João. In: Concilium, n° 6, p. 758-767. Petrópolis: Vozes, 1988.


Obs.: Quem quiser adquirir o Livrinho Texto-base do mês da Bíblia, do CEBI-MG, de 2019 – A Comunhão entre Deus e nós: uma leitura da Primeira carta de João feita pelo CEBI-MG – entrar em contato com CEBI-MG: Secretaria Estadual CEBI-MG.

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Gilvander Moreira
é frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte, MG, autor de livros e artigos.
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