19 Set 2019 | domtotal.com

Profissão esperança

Quase todos os dias levamos um susto com o rumo dos acontecimentos nacionais.

Ao visitar o pai no hospital, Eduardo Bolsonaro deixou-se fotografar com uma pistola na cintura.
Ao visitar o pai no hospital, Eduardo Bolsonaro deixou-se fotografar com uma pistola na cintura. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Alguém já disse que o Brasil não é para amadores. Não é mesmo! Quase todos os dias levamos um susto com o rumo dos acontecimentos nacionais. Depois de anos sob o julgo de governos corruptos, estamos agora sob o comando não de um presidente eleito, mas de uma dinastia de ineptos.

Ao visitar o pai no hospital, Eduardo Bolsonaro deixou-se fotografar com uma pistola na cintura. Além de deputado federal, ele é candidato a embaixador do Brasil em Washington. A exibição da arma não coaduna com nenhum dos dois cargos e só serviu para mostrar o despreparo do rapaz.

Enquanto isso, o primogênito Flávio Bolsonaro se esforçava na tentativa de brecar a CPI da Lava Toga. Chegou mesmo a gritar com uma colega de partido que insistiu na aprovação. Foi uma forma de retribuir o presidente do STF, Dias Toffoli, pela blindagem contra as investigações da Coaf.  

As suspeitas sobre o senador no caso Queiroz talvez expliquem o namoro do pai com Toffoli, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. O trio parada-dura conspira contra a Lava Jato, que será investigada por uma CPI cuja mira é o ex-juiz Sergio Moro. Jair Bolsonaro morde e sopra. Se a sombra do ministro da Justiça o ofusca, ela também garante o apoio do eleitorado.

Jogando lenha na fogueira, como sempre, o Zero 2, Carlos Bolsonaro, postou nas redes sociais que é difícil fazer muita coisa a curto prazo num regime democrático. Obviamente que a turma do mimimi se escandalizou, como se o vereador carioca estivesse pregando um golpe de Estado. Mas, convenhamos, com filhos assim, quem precisa de inimigos?

Paraíso da bandidagem

A procuradora Raquel Dodge pediu a suspensão da portaria do ministro Moro que prevê a deportação e impede a entrada no país de estrangeiros envolvidos com terrorismo, tráfico e pornografia infantil. Talvez ela queria manter a má fama brasileira de paraíso da bandidagem, por acolhermos gentalha como Ronald Biggs e Cesare Battisti.

Já a autoproclamada “resistência” vive a desqualificar os feitos positivos do governo, como a reforma da Previdência, o corte de tarifas de importação para máquinas e equipamentos e a proibição de se criarem impostos – o que parece ter exorcizado o fantasma da CPMF. Agora circula boato de que Bolsonaro quer congelar o salário mínimo. Seria um tiro no pé da economia.

A direita moralista também não abre mão de vexames. Foi o caso da proibição de publicações LGTB na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. O prefeito Marcelo Crivella alegou proteger as crianças – que, aliás, vivem ameaçadas por balas perdidas. A censura do basbaque saiu pela culatra, com as tais publicações batendo recordes de venda.

Por sua vez, “o guru da Virgínia”, Olavo de Carvalho, gravou um vídeo defendendo apoio incondicional a todos os atos do presidente da República – por pior que eles sejam. Na certa ele sofreu um surto paranoico pró-ditadura, algo típico de quem acha que até os Beatles eram comunistas.

Haja coração! Não foi à toa que o saudoso dramaturgo Paulo Pontes escolheu o nome Brasileiro, profissão esperança para um musical dos anos 1970. O título grudou no imaginário nacional. Até porque o sufixo “eiro” designa profissão. No fundo, todo brasileiro é um profissional da esperança, a última que morre.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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