26 Set 2019 | domtotal.com

Censura nunca mais

Pelo bem da democracia, nenhuma forma de censura deve ser tolerada.

Pode-se não gostar de Chico Buarque, mas não se pode negá-lo como patrimônio da nossa cultura.
Pode-se não gostar de Chico Buarque, mas não se pode negá-lo como patrimônio da nossa cultura. (Divulgação)

Por Jorge Fernando dos Santos

No início da semana, circulou a informação de que o presidente Jair Bolsonaro estaria sendo pressionado pelo núcleo ideológico do seu governo a não assinar o diploma do Prêmio Camões, outorgado este ano a Chico Buarque. Caso não assine, estará passando recibo de analfabeto político.

Mesmo que os livros do autor não sejam excepcionais como são suas músicas, a premiação muito nos honra como brasileiros. Por outro lado, seria irônico um lulista convicto como Chico receber a láurea subscrita pelo governante a quem tanto detesta.

Já pegava mal a suposta censura do Itamaraty à exibição do filme Chico – Artista brasileiro, no 8º Cine Fest Brasil (organizado pela produtora Inffinito e programado para acontecer entre 3 e 9 de outubro, na capital uruguaia, Montevidéu). Pelo menos nesse caso tudo não passou de um mal-entendido.

Numa carta ao diretor Miguel Faria Júnior, a diretora do evento, Adriana Dutra, informou que não houve censura. O documentário não foi selecionado por se tratar de uma produção de 2013, lançada em 2015. O festival é destinado a filmes de 2018 e 2019. A missiva foi publicada na coluna de Ancelmo Gois, em O Globo, no dia 13/9.

Depois da confusão, Chico saiu no lucro. Os organizadores do festival resolveram exibir o filme, mesmo que não se enquadre nos critérios pré-estabelecidos da mostra. Trata-se, aliás, de um excelente documentário que, infelizmente, ficou pouco tempo em cartaz no Brasil.

Politicamente nocivo

O atual governo tem sido um dos mais controversos da história nacional. O presidente, muitas vezes, se comporta como um bipolar. Faz e desfaz, diz e desdiz besteiras, quase sempre atropelando a liturgia do cargo. Felizmente, o discurso proferido na ONU, nessa terça-feira, não foi dos piores. Bolsonaro foi duro e marcou posição com sua agenda conservadora.

Contudo, pelo bem da democracia, nenhuma forma de censura deve ser tolerada. Critérios de avaliação nunca são unânimes e sempre causam polêmica, mas vetar por vetar uma obra de arte é sempre um atentado à liberdade de expressão. Pode-se não gostar de Chico Buarque, mas não se pode negá-lo como patrimônio da nossa cultura.

No entanto, convenhamos, a esquerda implementou uma outra forma de censura igualmente nociva à liberdade de pensamento. Trata-se da doutrina do politicamente correto. Mesmo nas ditaduras do Estado Novo e dos generais pós-64, nunca se viu tanto patrulhamento nos meios artísticos e intelectuais. Isso sem falar no revisionismo histórico.

Brevemente chega ao mercado a obra de Monteiro Lobato revista por outros autores, entre eles Pedro Bandeira. Para atender à demanda dos editores “inteligentinhos”, o escritor mudou parte do texto original, cortou falas e limou o personagem Pedrinho (por considerá-lo inexpressivo).

Só falta agora “adaptarem” a Bíblia e os Dez Mandamentos. Ou a própria obra de Chico Buarque, quando manda as moças se mirarem no exemplo das Mulheres de Atenas, quando joga pedra na Geny ou quando diz ao Caro amigo que “a coisa aqui tá preta”. Nisso ele foi profético!

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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