03 Out 2019 | domtotal.com

Xodó dos escritores

Muitos são os livros que têm gatos como protagonistas, a começar pelo clássico 'O gato de botas'.

Guimarães Rosa teve vários bichos, mas os angorás eram seus preferidos
Guimarães Rosa teve vários bichos, mas os angorás eram seus preferidos (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Os gatos geralmente ficam em casa, enquanto os cães são levados a passear. Talvez por isso não existam estatísticas sobre a quantidade de bichanos no mundo. Por outro lado, justamente por ser discreto, independente e silencioso, o gato se tornou o xodó dos escritores.

“Milhares de anos atrás os gatos eram adorados como deuses e até hoje eles não se esqueceram disso”. A frase anônima tem muito de verdadeira e ecoa uma afirmação da escritora francesa Sidonie Gabrielle Collete: “Os cães pensam que são humanos, gatos pensam que são Deus”.

O também francês Júlio Verne levava muito a sério o amor pelos felinos domésticos. “Acredito que gatos são espíritos vindos para a Terra. Tenho certeza de que um gato andaria nas nuvens sem cair”, escreveu o precursor da ficção científica.

Muitos são os livros que têm gatos como protagonistas, a começar pelo clássico O gato de botas, de Bruno de La Salle. Por sua vez, T. S. Eliot criou o musical The cats, sucesso na Broadway. Já o baiano Jorge Amado escreveu O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, seu único livro infantil. Seja como for, a preferência da turma das letras pelos bichanos é incontestável.

Edgar Allan Poe que o diga. Mestre dos contos de mistério, ele vivia cercado de felinos. Não por acaso seu conto de maior sucesso chama-se O gato preto. Nesse caso, o tiro saiu pela culatra, pois a obra contribuiu para a má-fama do bicho, cuja figura é associada ao azar desde a antiguidade.

A alma da casa

Aficionado das touradas na Espanha, pescador de marlins no Caribe, caçador de feras na África, o durão Ernest Hemingway se derretia diante dos bichanos e chegou a ter dezenas deles. Talvez por isso um dos seus primeiros contos de sucesso tenha sido Gato na chuva. Inspirado nisso, Carlene Brennen escreveu Hemingway’s cats: an illustrated biography.

Um dos autores que mais influenciaram Hemingway foi Mark Twain. Criador dos personagens juvenis Huckleberry Finn e Tom Sawyer, Twain dizia que “se o homem pudesse cruzar com os gatos, isso melhoraria o homem e deterioraria o gato... Se os bichos falassem, o cachorro seria um amigão tagarela, mas o gato teria a graça rara de nunca dizer uma palavra a mais”.

Também o mestre da geração beat, William Burroughs, adorava felinos e achava que “o gato não oferece favores. Ele oferece a si mesmo e quer cuidado e abrigo. Não se consegue amor em troca de nada. Como todas as criaturas puras, os gatos são práticos”.

Talvez concordasse com Burroughs o inglês Aldous Huxley, que recomendava: “Se quiser conhecer bem as emoções humanas, tenha gatos em casa”. Já o francês Jean Cocteau, declarou: “Amo meus gatos como amo a minha casa, aos poucos eles se tornaram sua alma visível”.

Ligação com Deus

No Brasil, muitos escritores viveram ou vivem às voltas com gatos de estimação. Nascido e criado no interior de Minas, Guimarães Rosa teve vários bichos ao longo da vida, mas os angorás eram seus preferidos.

Já o poeta maranhense Ferreira Gullar afirmou certa vez que, “ao contrário do que as pessoas dizem, que gato não gosta de dono, o gato só é mais sutil”. Pouco depois, lamentou publicamente a morte do seu bichano, que tinha o hábito de misturar os recortes de revistas com os quais ele fazia mosaicos.

Também Haroldo de Campos deixou registrado seu amor pelos gatos, que teriam “uma ligação direta com Deus”. Luiz Ruffato, por sua vez, disse que os bichanos percebem quando o dono não está bem e isso “é uma coisa bem curiosa”. Esse tipo de sensibilidade inspirou Natsume Soseki ao escrever Eu sou um gato, clássico da literatura japonesa.

Raul Pompéia dizia que “o cão escravizou-se; o gato nunca teve um dono”. Já o poeta chileno Pablo Neruda escreveu que “só o gato apareceu completo e orgulhoso”. Machado de Assis registrou bem-humorado: “O gato que nunca leu Kant é talvez um animal metafísico”. Lewis Carroll, com o gato de Alice no País das Maravilhas, retratou o felino como metáfora da anarquia.

A lista de autores apaixonados por gatos inclui Anton Tchekhov, Cecília Meireles, Charles Baudelaire, Cora Rónai, Cunha de Leiradella, Heloísa Seixas, Jack Kerouac, Jorge Luis Borges, Júlio Cortazar, Lygia Fagundes Telles, Manuel Bandeira, Mário Quintana, Nelson Ascher, Patricia Highsmith, Paulo Francis, Ruy Castro, Truman Capote e muitos outros.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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