10 Out 2019 | domtotal.com

Faca de dois gumes

Uma coisa é defender direitos, outra é incorporar a atitude dos opressores.

Karol Conka se tornou alvo de supremacistas, que não toleram a mistura de raças.
Karol Conka se tornou alvo de supremacistas, que não toleram a mistura de raças. (Reprodução/Instagram/Carol Conka)

Por Jorge Fernando dos Santos

Recentemente, a cantora Karol Conka assumiu nas redes sociais seu namoro com um colega branco. Em questão de minutos, ela se tornou alvo de supremacistas, que não toleram a mistura de raças. O mesmo já havia ocorrido com a atriz Erika Januza, no ano passado.

Episódios como esses, que geralmente só ganham destaque nas redes e nas colunas de celebridades, dão muito o que pensar. Afinal, essa gente quer igualdade ou simplesmente anseia pela volta do apartheid, que tantos males já causou a negros, brancos e, principalmente, mestiços?

O problema de extremistas é serem movidos muito mais por ressentimentos do que pela justa intenção de promover a inclusão social e o respeito mútuo. Graças ao ódio pelo resto da Europa (que os humilhava há séculos), a maioria dos alemães abraçou o nazismo, de resultados catastróficos.

O Brasil não é negro, branco nem índio. Como dizia orgulhosamente o antropólogo e escritor Darcy Ribeiro (que falta ele nos faz!), somos o país mais mestiço do mundo. Mestiço também na cultura, marca indelével da nossa nacionalidade, o que foi abordado por Gilberto Freyre no clássico Casa-grande & senzala.

Eugenia e apartheid

Uma coisa é defender direitos, outra é incorporar a atitude dos opressores. Convém lembrar a lição do físico Albert Einstein. Ao preencher o item sobre raça na ficha do serviço de emigração dos EUA, o sábio judeu-alemão escreveu “raça humana”.

O problema de alguns ativistas da causa negra é se basearem na história americana. Nos EUA, a situação foi bem diferente – o que, obviamente, não justifica o racismo que sempre existiu por aqui, na maioria das vezes de forma camuflada. No entanto, cada país tem sua história e características próprias. Se o objetivo é a igualdade, por que discriminar os outros?

Em parte do território norte-americano a eugenia levou ao apartheid (tema abordado no filme Loving – Uma história de amor, em cartaz no Netflix). Os estados do Sul, derrotados na Guerra de Secessão (1860-1865), condenaram os negros à segregação. Muitos eram mortos pelo simples fato de flertarem com mulher branca.

O problema crucial no Brasil é que o Império não compensou os alforriados da Lei Áurea. Injustamente, indenizou a oligarquia escravocrata e condenou milhões de negros à miséria. A injustiça chegou aos nossos dias, gerando uma série de problemas sociais. Laurentino Gomes aborda o tema na trilogia Escravidão, cujo primeiro volume já está nas livrarias.  

Destaque na história

Apesar das adversidades, muitos afrodescendentes se destacam na história brasileira, inclusive como intelectuais. Nomes como Lima Barreto, José do Patrocínio, Machado de Assis, André Rebouças, Nilo Peçanha (presidente da República), João do Rio, Luís Gama, Joaquim Barbosa, Milton Almeida dos Santos e Abdias do Nascimentos são alguns deles.

Se acrescentarmos atletas e artistas à lista, ela não teria fim. Não podemos deixar de fora alguns gênios da raça, como Antonio Francisco Lisboa (o Aleijadinho), Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Cartola, Moacyr Santos, Milton Nascimento, Grande Otelo e o “rei” Pelé – o brasileiro mais conhecido lá fora.

Outro nome de sucesso é a jornalista Glória Maria, que, às vésperas do Dia da Consciência Negra, em novembro de 2017, postou uma frase atribuída ao ator americano Morgan Freeman: “No dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca, e nos preocuparmos com Consciência Humana, o racismo desaparece”.

A exemplo de Karol Conka e Erika Januza, a repórter da Globo foi execrada nas redes sociais. Afinal, não importa a causa, extremistas sempre se consideraram mais iguais que os outros e, por isso mesmo, perseguem todo aquele que não reza pela sua cartilha.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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