17 Out 2019 | domtotal.com

Pondé e seus mestres

O autor também resgata três filósofas que foram caladas pela Inquisição.

Luiz Felipe Pondé discorre sobre os pensadores que o influenciaram.
Luiz Felipe Pondé discorre sobre os pensadores que o influenciaram. (Divulgação)

Por Jorge Fernando dos Santos

Filósofo e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutor pela Universidade de Tel Aviv, professor na FAAP e na PUC-SP, Luiz Felipe Pondé lançou este ano pela editora Planeta o livro Como aprendi a pensar – os filósofos que me formaram. Em tom de bate-papo, estilo que sempre caracterizou sua escrita, o autor discorre sobre os pensadores que mais o influenciaram.

Com certeza, Pondé é o filósofo mais conhecido do país. Filósofo por excelência, nada a ver com autoajuda ou doutrinação. Articulista e comentarista da TV Cultura e da Folha de S. Paulo, também tem um canal no Youtube com muita audiência. Ele aborda temas políticos, filosóficos e comportamentais de forma coloquial, com ironia e bom-humor. Só os “inteligentinhos” não gostam.

Em seu novo livro, além dos clássicos Aristóteles, Sócrates, Platão e Demócrito, o autor comenta o pensamento sofista, atribuindo a Protágoras o que considera uma das maiores frases já ditas no mundo: “O homem é a medida de todas as coisas”. Estoicos, epicuristas e céticos vêm logo em seguida na sua escala de pensadores influentes.

Pondé enaltece Sêneca e Marco Aurélio, que apontavam a efemeridade da vida: “Quanto menos nos apegarmos às coisas e às pessoas, menos sofreremos... Os estoicos são exímios críticos das mentiras do mundo em sociedade e vão fincar raízes profundas na filosofia, chegando a filósofos norte-americanos no século XIX, como Henry Thoreau e seu projeto ‘Walden’, de passar um tempo num bosque vivendo das próprias mãos”.

Crítica às religiões

Epicuro, atomista por excelência, “levantará um tipo de crítica às religiões que fará escola até Spinoza no século XVII, Marx no XIX e Freud no XX”. Nesse sentido, a base da fé seria “o medo da vida e dos deuses, a ignorância das verdadeiras causas materiais das coisas”. Abrindo o capítulo Antiguidade tardia, o autor analisa o encontro entre Jerusalém e Atenas, do qual resultou o modo de ser e estar da civilização ocidental.

Pondé fala da controvérsia dos gnósticos: “Um tema comumente associado a eles é o pessimismo cosmológico... Um deus mau teria criado o universo e a humanidade e nos tortura desde então”. E a relação entre espiritualidade e filosofia: “A espiritualidade cristã patrística, ou da antiguidade tardia, marcará profundamente a filosofia posterior à Idade Média”.

Ele também afirma que a filosofia medieval talvez tenha sido o mais longo período de produção da história do Ocidente. Ele aponta Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, lembrando que “a chegada da filosofia de Aristóteles à Europa Latina (cristã) se dá via Espanha Muçulmana , pelas mãos do grande comentador de Aristóteles, Averróis, filósofo de Córdoba”. 

Pensamento feminino

O autor também resgata três filósofas que foram caladas pela Inquisição. A primeira é Marguerite Porete, autora do livro O espelho das almas simples, queimado com ela em 1310, “no mesmo dia em que alguns templários arderam em fogueiras”. As outras são Hadewijch de Brabante ou Antuérpia e Mechthild von Magdeburg – “nossa béguine alemã” (século XIII).

No capítulo sobre Renascimento e Filosofia Moderna, ganham destaque o conde Pico Della Mirandola (autor de Oração pela dignidade da natureza humana), Maquiavel (O príncipe), Descartes (“a humildade é a virtude do método”), Montaigne, Francis Bacon, Pascal, Thomas Hobbes e os pais do liberalismo, Lock e Stuart Mill.

Pondé também fala sobre o que chama de “modernidade bipolar” e a dialética entre Iluminismo e Romantismo. Ele também enfatiza o debate sobre a ética e discorre sobre os pensadores contemporâneos.

Aparecem no livro nomes como Edmundo Burke, Marcuze, Charles Darwin, Carlos Jung, Nietzsche, Dostoiévski, Albert Camus, Zigmunt Bauman, Tristan Garcil, Émil Cioran e Nelson Rodrigues – o “reacionário” brasileiro cuja obra tem alcançado dimensões filosóficas.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas