04 Out 2019 | domtotal.com

Reprovado é quem reprova!

Se perdemos de vista o objetivo de educar, e reforçamos apenas o objetivo de cumprir as regras

Reprovar um aluno não seria reprovar o sistema de ensino?
Reprovar um aluno não seria reprovar o sistema de ensino? (Pixabay)

Por Marcel Farah

O desafio educacional sempre foi o de transformar as pessoas. Dependendo do lugar e dos interesses de quem educa, essa transformação tem sentidos diversos.

A educação pode transformar as pessoas em seres pensantes, criativos, críticos, sujeitos de sua própria história, ou transformá-las em seres obedientes, disciplinados, produtivos e conformados.

É claro que estes adjetivos podem se misturar em sentidos que não sejam necessariamente opostos, mas o central é que a educação transforma as pessoas. E o sentido da transformação depende dos objetivos e da visão de mundo de quem educa.

Por isso, educar pode significar doutrinar, conduzir, manipular, como também pode significar mostrar as portas e deixar que as pessoas abram, apontar os caminhos e deixar que as pessoas caminhem, fazer as perguntas e deixar que as pessoas respondam, ou seja, permitir que as pessoas escolham e entendam as consequências.

Essa diferença de postura educacional é o primeiro passo para se entender o processo educativo e prever, mesmo que precariamente, seus resultados. Pois, para uma sociedade que se organiza sobre a exploração das pessoas, caberá um tipo de educação, e para uma sociedade que se organiza sobre a colaboração entre as pessoas caberá outro tipo.

Pois bem, faço essas considerações para refletir sobre a tal “falta de autoridade” que diversas pessoas utilizam para justificar o ato de punir, como ato educativo.

Estou me referindo ao castigo que os pais dão às crianças, à nota que é tirada por mau comportamento, e até mesmo à reprovação do aluno que não “atinge a média”. São comportamentos padronizados por nossa cultura educacional coletiva, sobre os quais refletimos pouco.

As penalidades, em geral, estão baseadas em acordos prévios, como se fossem as regras do jogo. Essas regras dizem, grosso modo, que as pessoas devem ser punidas ao descumpri-las Mas qual a justificativa? O descumprimento da regra! E qual o objetivo das regras: educar, ou ser cumprida?

Se perdemos de vista o objetivo de educar, e reforçamos apenas o objetivo de cumprir as regras, estamos retirando o sentido da regra e também da educação. Estamos, assim, doutrinando, impondo um caminho, e não permitindo a reflexão e a escolha do caminho, não permitindo a construção da autonomia.

Por isso, vale a questão: reprovar um aluno não seria reprovar o sistema de ensino? Ou: a nota abaixo da média só significa que o aluno falhou, ou significa também que a educação falhou? Ou ainda: quando o filho desobedece a mãe ou o pai, significa somente que ele infringiu a regra, ou que o esforço materno e paterno também falhou?

Por isso, a educação deve ser pensada sempre como uma relação entre as pessoas, o caminho é de mão dupla, ninguém ensina ninguém, as pessoas aprendem em suas relações, entre si e com o mundo. Doutro lado, tem autoridade quem conquistou autorização, e não quem é autoritário. Vale para adulto, vale pra criança. Isso, caso queiramos uma educação para um mundo de cooperação, e não de exploração.

Marcel Farah
Educador Popular
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas