09 Out 2019 | domtotal.com

Sínodo da Amazônia, bênção espiritual, ética e profética

Com o foco na Amazônia, Igreja busca as periferias do mundo e as coloca no centro.

Com procissão que entoa o pedido de “avançar para águas mais profundas”, Francisco e participantes iniciam Sínodo nesta segunda-feira (07).
Com procissão que entoa o pedido de “avançar para águas mais profundas”, Francisco e participantes iniciam Sínodo nesta segunda-feira (07). (Guilherme Cavalli/Cimi)

Por Gilvander Moreira

Bendito dia 15 de outubro de 2017, dia que o papa Francisco, acolhendo os clamores dos povos amazônidas, da mãe terra amazônica, da irmã água, da fauna, da flora e de toda a biodiversidade, teve a intuição e a coragem de convocar o Sínodo da Amazônia. Quase do tamanho do Brasil, com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, 60% da Amazônia está em território brasileiro e os outros 40% estão em outros oito países: Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia e Guiana Francesa. Na região pan-amazônica vivem mais de 34 milhões de pessoas, em quase 400 povos diferentes, centenas deles ainda isolados no meio da floresta.

Dos dias 6 a 27 de outubro agora (2019), no Vaticano, está acontecendo o Sínodo da Amazônia. A palavra ‘sínodo’, na língua grega, é composta de syn = com, juntos, e hodos = caminho. Portanto, sínodo significa caminhar juntos. Ou seja, caminhar com os povos amazônidas, não sem eles e jamais contra eles. Em 519 anos de presença branca na Amazônia houve muita violência socioambiental em um projeto de colonização que trouxe juntas a cruz e a espada. O papa Francisco e a Igreja Povo não toleram mais nenhum tipo de neocolonização. A política de integração dos povos indígenas à cultura branca também é processo de violência que não pode mais ser tolerada. “Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos”, diz em alto e bom som o papa Francisco.

Mais de 300 personalidades, entre as quais 110 bispos latino-americanos, participam do sínodo, guiados pelo tema: "Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral". Do Brasil estão participando mais de 40 bispos e muitos representantes de povos originários e mulheres, inclusive. Em um exercício de participação popular e democrática, mais de 80 mil pessoas integraram as reuniões e assembleias preparatórias. Muitas propostas foram colocadas e estão sendo discutidas. Por exemplo, povos indígenas do Equador enviaram mensagem ao papa pedindo que a Amazônia seja elevada à categoria de patrimônio e santuário mundial intangível da Casa Comum e que sua preservação seja vista como uma necessidade de responsabilidade socioambiental e geracional diante do alarme ecológico disparado.

Com o sínodo, o papa aponta que o caminho para evitarmos o apocalipse final passa por ouvirmos os mártires da Amazônia e com a causa deles nos comprometermos. Citamos, por exemplo, milhares de indígenas assassinados ao longo de 519 anos de violência imposta aos seus povos pela colonização europeia, Chico Mendes, padre Ezequiel Ramin, irmã Dorothy, entre tantos outros. Ouvir esses mártires implica estancar a devastação da Amazônia e frear o avanço do agronegócio sobre a região. 

Não às monoculturas! Não à mineração devastadora! Sim à demarcação de todos os territórios indígenas e dos povos tradicionais. Sim a uma economia a partir dos povos originários e que garanta a sustentabilidade ecológica. O sínodo indica que seguir o jeito que o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) trilha há quase 50 anos, desde 1971, no meio dos povos indígenas é caminho ético e emancipatório. Nada de cristianização, nem integração, mas respeito e admiração pela alteridade imensamente plural dos povos indígenas e tradicionais, tais como: pescadores tradicionais, ribeirinhos, seringueiros, quilombolas, quebradeiras de coco de babaçu etc. 

Em 2015, o papa Francisco publicou a encíclica Louvado sejas (Laudato si, em latim), sobre o cuidado com a Casa Comum e sobre a ecologia integral. Ela incomodou opressores do centro da idolatria do mercado no mundo. Trata-se de um dos melhores documentos já escritos sobre a injustiça socioambiental reinante no mundo, porque não apenas aponta a imensa devastação socioambiental em curso, mas porque aponta as causas e os causadores desse tipo de injustiça. 

Na encíclica, o papa, "pondo o dedo na ferida", diz claramente que o causador principal dessa imensa devastação que cresce em progressão geométrica no mundo é o modelo econômico capitalista, a idolatria do mercado e do capital, uma economia que violenta e mata. Francisco aponta também caminhos a seguir para a superação da injustiça socioambiental: conviver de forma harmônica com a mãe terra, preservando as fontes d’água e praticando modelos econômicos sustentáveis ecologicamente.

Na esteira da Laudato Si, o sínodo será uma bênção espiritual, ética e profética para a Igreja, para a humanidade e para todos os seres vivos, pois ecoará que a Amazônia é bem comum de toda a humanidade e de todos os seres vivos, é o grande pulmão e um grande rim/filtro do planeta Terra. A Amazônia é pulmão do mundo, porque, por meio do processo da fotossíntese, os milhões de árvores centenárias a partir das suas folhas aquecidas pela luz do irmão sol produzem o irmão oxigênio que garante a vida para grande parte da humanidade. 

Toda árvore é uma grande usina de oxigênio. Cortar uma árvore significa matar uma grande fonte de produção de oxigênio e de absorção de dióxido de carbono. A Amazônia é também um grande rim/filtro do planeta Terra, porque, por meio das folhas das árvores, as plantas absorvem grande parte do dióxido de carbônico jogado no ar pelas chaminés das indústrias/fábricas, pela descarga dos caminhões, dos automóveis etc.

Nós humanos, ao respirarmos, inspiramos o oxigênio que as irmãs árvores e o irmão sol nos oferecem gratuitamente e expiramos gás carbônico. As árvores fazem o contrário: absorvem gás carbônico e exalam oxigênio no ambiente. A Amazônia é também a principal fonte produtora de chuvas em grande parte da América do Sul. 

Na Amazônia há muita água no subsolo em aquíferos, no solo, nos rios, lagos e igarapés, e na atmosfera sobre território da Pan-Amazônia se formam os rios aéreos voadores. Cada árvore centenária da Amazônia exala na atmosfera, por dia, milhares de litros de água na forma gasosa. Com as correntes de vento, a umidade produzida no processo de evapotranspiração forma os imensos rios aéreos voadores que, empurrados pelas correntes de ventos, criam as condições objetivas para que aconteçam chuvas no Sudeste e no Sul do Brasil, no Uruguai, no Paraguai e na Argentina. Esses rios aéreos voadores produzidos na Amazônia transportam uma quantidade maior de água do que os rios que estão na superfície do solo amazônico. 

Conhecer de forma profunda a Amazônia se tornou uma necessidade para amarmos e defendermos de forma intransigente a sua preservação. Se não interrompermos com urgência a devastação ambiental da Amazônia, sua desertificação causará a de grande parte do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, o aumento assustador da temperatura e o colapso d’água em várias regiões do planeta, o que tornará a vida humana impossível na nossa única Casa Comum. Imagine o que será da humanidade com a quantidade de dióxido de carbono jogada na atmosfera sem ter a floresta amazônica para absorver!

A Amazônia é a grande farmácia da humanidade e dos animais, pois da seiva da sua imensa biodiversidade se extraem os fármacos que produzem remédios que curam a maioria das doenças. Logo, ela é um território terapêutico também, povoado por espíritos ancestrais e originários. A história demonstra que os principais e verdadeiros guardiões da Amazônia são seus quase 400 povos indígenas e suas quase 400 línguas, uma imensa diversidade cultural e espiritual que habita esta região há pelo menos 14 mil anos. 

Projeções feitas a partir de documentos e de pesquisas arqueológicas estimam a população indígena, por ocasião da conquista/colonização, em 1500, entre 3 milhões e 5 milhões de pessoas, somente na Amazônia brasileira. Por isto, a não demarcação das terras indígenas intensifica as ameaças a estes povos, pois demarcar as terras indígenas é o primeiro passo para o respeito de seus direitos primordiais à terra, ao sagrado e às práticas xamânicas milenares.

Portanto, bendito quem se compromete com a defesa da Amazônia e de todos os biomas. Maldito quem, por ignorância ou por cumplicidade com o sistema do capital, está agindo de forma devastadora. O sínodo proporá mudanças radicais no sentido de respeitar e valorizar a imensa fonte de vida que está na Amazônia. Feliz quem se abrir para os apelos dos povos da amazônia e para os clamores da floresta amazônica com toda sua esplendorosa fauna e flora. 

O instrumento de trabalho do sínodo está propondo inclusive a discussão sobre o fim do celibato obrigatório e o fim do clericalismo na Igreja Católica, ou seja, pergunta-se sobre a possibilidade de abrir espaço para que homens casados também possam ser sacerdotes e mulheres possam também receber algum tipo de ministério ordenado. Enfim, o sínodo proporá conviver com as culturas respeitando-as e não cristianizando-as. O cardeal Tolentino Mendonça aponta o significado do evento: “O papa Francisco com o Sínodo da Amazônia quer colocar a periferia no centro da Igreja”. Eis um caminho santo e emancipatório a ser trilhado para que a Igreja se torne de fato Igreja com rosto amazônico, Igreja descolonizadora.

 1 – Leonardo Boff  fala sobre o Sínodo da Amazônia. Entrevista a frei Gilvander. Parte I - 03/10/2019


2 – Leonardo Boff (Parte II) fala sobre o Sínodo da Amazônia. Entrevista a frei Gilvander. 03/10/2019


3 - SÍNODO PARA A AMAZÔNIA (subtítulos: ES, EN, GE, IT, FR)


4 - Análise teológico-pastoral do Instrumentum Laboris do Sínodo sobre a Amazônia - Paulo Suess

Gilvander Moreira
é frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte, MG, autor de livros e artigos.
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