22 Out 2019 | domtotal.com

Ao copiar a Champions, Conmebol mata a Libertadores

Final disputada em jogo único não faz parte da cultura do sul-americano

Atlético foi um dos últimos times a disputar a final
Atlético foi um dos últimos times a disputar a final "raiz" com jogos de ida e volta e ser campão em casa, no Mineirão (AFP)

Por Juliano Paiva

O novo formato da Copa Libertadores nem chegou a seu grande teste – a final em jogo único em Santiago – e já está reprovada por antecipação por grande parte dos sul-americanos.  

Dois clássicos, River Plate x Boca Juniors e Grêmio x Flamengo, fazem da semifinal uma fase eletrizante. Um jogo na casa de cada time é a cara da Libertadores, está no sangue dos latinos, é “raiz” como dizem por aí os torcedores.

Também por isso os dois primeiros jogos da semifinal – um no Monumental de Núñez e outro na Arena Grêmio – foram tão marcantes. As torcidas dos Millonarios e do Imortal tiveram a chance de empurrar suas paixões no futebol. O mesmo acontecerá com os fãs do Mengo e do Boca.

É algo singular, impar, para quem torce com afinco por um clube de futebol desde criança na América do Sul. Há quem aguarde por isso por toda uma vida. Mas a Conmebol tirou este prazer de nós sul-americanos copiando a badalada Champions League.

A Conmebol quer fazer da Libertadores uma Champions. Isso vai contra a nossa cultura, o nosso costume. Nada contra os europeus ou sua maneira de promover o futebol, muito pelo contrário. Mas aqui é diferente.

Não é para ser diferente no sentido de ter uma Copa com jogadores violentos impunes apesar de cometerem agressões em campo, por exemplo. Ou terra de ninguém com torcidas mal-educadas jogando objetos enquanto o atleta da equipe adversária cobra um escanteio. Não é por aí. Esses comportamentos precisam e devem ser coibidos. E punidos, claro!

Se existem coisas que precisam ser copiadas da Uefa são a sua clareza nos regulamentos, a organização dos calendários, além da excepcional promoção dos jogos que viram verdadeiros eventos. Com estes detalhes a Conmebol não se preocupa. Pelo menos não no grau que deveria.

Muitos gremistas e torcedores do River podem ter se despedido de seus times na partida de ida da semifinal. O mesmo acontecerá com outros tantos flamenguistas e xeneizes na volta. E aí está outro grande problema da final única, em especial num continente pobre como o nosso: a segregação social.

Se hoje em dia já está caro ir numa partida em sua cidade, imagine ter que viajar para um país vizinho para ver o “jogo da vida”? O custo que seria “apenas” do ingresso e deslocamento para o estádio, sobe absurdamente com passagens áreas, hotel e comida em outro país.  

Tudo dito aqui vale também para a Copa Sul-Americana que nesta edição 2019 tem um agravante. Dois times pequenos estão na final que será disputada em partida única em Assunção.

Independiente del Valle, do Equador, e Colón, da Argentina, disputam a taça e a própria Conmebol teme que o Nueva Olla, do Cerro Porteño, não esteja cheio. Não por acaso há alguns meses tirou a decisão de Lima, no Peru, e a levou para o Paraguai, teoricamente, mais acessível para a maior parte das torcidas. 

Não seria mais bonito se torcedores do Del Valle e do Colón pudessem ir à final na cidade e estádio que conhecem desde sempre, onde cresceram e se tornaram fanáticos por seus clubes? Seria mais bonito inclusive para quem estiver de fora, bem longe, seja aqui mesmo na América do Sul ou em outro continente. O espetáculo seria mais autêntico, nada Nutella.

Mas a Conmebol não pensa assim e tem grandes chance de matar a sua menina dos olhos, a Taça Libertadores da América e, por tabela, sua irmã mais nova, a Copa Sul-Americana.

Juliano Paiva
é jornalista formado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente editor do Dom Total, Paiva trabalhou nos jornais O Tempo, Hoje em Dia e no extinto Diário da Tarde, tradicional periódico de Belo horizonte fechado pelos Associados Minas em julho de 2007. No DT, começou como repórter da editoria Cidades, mas, na época do fechamento do jornal, fazia cobertura esportiva. Também foi responsável pela cobertura de jogos do Campeonato Brasileiro para a Folha de São Paulo no segundo semestre de 2007.
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