24 Out 2019 | domtotal.com

Perigo no mar

Até sábado passado as manchas de óleo tinham alcançado 201 localidades em 74 municípios do Nordeste

Pescadores e outros voluntários não medem esforços para limpar as praias
Pescadores e outros voluntários não medem esforços para limpar as praias (Reuters)

Por Jorge Fernando dos Santos

Alguns hão de supor que o Brasil vem sendo castigado pelas pragas do Egito – aquelas que Moisés lançou contra o faraó para libertar os hebreus. O rompimento das barragens da Vale em Mariana e Brumadinho e o incêndio do Museu Nacional se somariam ao óleo que polui a costa brasileira como sinais dos tempos. No entanto, o pior dos sinais é a inépcia dos políticos.

O que mais preocupa nas manchas de petróleo que desde o final de agosto sujam as praias do Nordeste é que nem os governos estaduais nem o federal parecem interessados em resolver o problema, cujos resultados são catastróficos para o meio-ambiente e o turismo na região.

Foi preciso a Justiça Federal em Pernambuco conceder liminar para que a União enviasse equipamentos que ajudem a recolher o óleo das praias. Somente no início desta semana é que foi realizada a primeira coletiva de imprensa para tratar do assunto. Na ocasião, o almirante de esquadra Leonardo Puntel garantiu que a União cobrirá todos os gastos.

A Marinha, por sua vez, demorou a detectar o problema no limite das 200 milhas náuticas. Só recentemente é que foram encontrados barris de óleo com a marca Shell boiando em águas brasileiras. No entanto, exames feitos por técnicos da Petrobras apontam para o petróleo venezuelano.

Afinal, de quem é a culpa? Foi acidental ou intencional? Eis as perguntas que não querem se calar. A ONG ambiental Redemar e o Sindicato dos Petroleiros da Bahia ajuizaram, na sexta-feira (18), uma ação na Justiça Federal obrigando a Shell a fornecer informações sobre os tais barris. A empresa, por sua vez, garante que o óleo cru identificado não é o conteúdo original de suas embalagens.

Navios fantasmas

Segundo autoridades no assunto, navios fantasmas costumam usar rotas marítimas menos conhecidas. Dessa forma, as tripulações se sentem seguras para fazer contrabando de vários produtos – inclusive petróleo. Essas embarcações não cumprem exigências técnicas, o que muitas vezes resulta em vazamento de óleo em alto-mar.

Por outro lado, já foi noticiado que o governo do ditador Nicolas Maduro contrabandeia petróleo. “Sabemos que na Venezuela um dos graves problemas é o contrabando de combustível”, afirmou na semana passada o especialista venezuelano Rafael Villa, do Instituto de Relações Internacionais da USP.

Segundo Villa, sabe-se também que “o tráfico de combustível é uma das cinco atividades ilícitas mais lucrativas, atrás de drogas, armas, pessoas e animais”, o que talvez explique o vazamento de óleo cru que está poluindo a costa nordestina. Para navegar sem registro oficial, navios ilegais trocam de nome e desligam o transponder para não serem rastreados.

“Historicamente, parte do petróleo produzido sempre foi comercializado por canais não oficiais”, disse o economista Edmar Almeida, da UFRJ, em reportagem do UOL. “Tanto é que nas estatísticas do petróleo há diferença entre o que é declarado como produção e o que é declarado como consumo”.

Seja lá como for, pescadores e outros voluntários não medem esforços para limpar as praias, de onde já foram recolhidas quase mil toneladas de óleo. Em vez de ajudar, o Greenpeace protesta em Brasília e a ONU finge que não é com ela. Segundo o Ibama, até sábado passado as manchas de óleo tinham alcançado 201 localidades em 74 municípios do Nordeste.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
+ Artigos
Comentários

Instituições Conveniadas