31 Out 2019 | domtotal.com

O Chile não é aqui

Ao analisar a realidade chilena, salta aos olhos as diferenças com o Brasil

A raiz do problema é o descontentamento com as desigualdades sociais
A raiz do problema é o descontentamento com as desigualdades sociais (AFP)

Por Jorge Fernando dos Santos

A esquerda e a direita tupiniquins tentam tirar proveito da crise que está sacudindo o Chile. Esquerdistas apostam que cedo ou tarde a “fúria antiliberal” tomará conta do Brasil. Direitistas radicais, por sua vez, evocam o artigo 142 da Constituição Federal, que autoriza a intervenção militar em casos de instabilidade social – o que está longe de acontecer no país.

Essa gente se esquece que povos não se comparam. Esse é um dos principais ensinamentos da História. Cada um tem natureza própria e cada país resolve seus problemas à sua maneira. Comparar a crise chilena com as manifestações ocorridas no Brasil em 2013 é passar recibo de ignorância. Os dois eventos têm razões e objetivos completamente diferentes.

Os chilenos, todo mundo sabe, descendem dos espanhóis, povo aguerrido e de sangue quente. Enfrentaram a ditadura militar mais sanguinária da América do Sul. Calcula-se em 40.280 o número de pessoas executadas, desaparecidas e/ou torturadas durante os 17 anos de governo do general Augusto Pinochet. Há quem diga que a cifra pode ultrapassar os 100 mil.

Contudo, o Chile alcançou uma estabilidade econômica sem precedentes. Isso graças a um longo período de políticas liberais que, infelizmente, não ofereceram garantias trabalhistas, previdência ou assistência social. O modelo gerou uma multidão de desamparados e ressentidos que agora cobram a conta.

Mesmo que a revolta dos chilenos, que já resultou em 20 mortos, possa ter componentes externos (como a infiltração de agentes cubanos e venezuelanos aventada pela OEA, o que não é de se duvidar), fato é que a raiz do problema é o descontentamento com as desigualdades sociais. O aumento no preço das passagens de metrô foi o estopim da crise.

Diferenças numéricas

Ao analisar a realidade chilena, saltam aos olhos as diferenças com o Brasil. O Chile é um país relativamente pequeno, com aproximadamente 757 mil quilômetros quadrados de território. O Brasil é um país continental e rico em recursos naturais, tendo mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados.   

Em 2017, o Produto Interno Bruto (PIB) chileno foi de US$ 277,1 bilhões (índice que pontua os riscos inflacionários). No mesmo ano, longe de ser o melhor da nossa História, o PIB brasileiro alcançou a marca dos US$ 2,056 trilhões. Apesar da crise, em 2018 chegou à casa dos R$ 6,8 trilhões.

Isso, por si só, nos coloca num patamar vantajoso, embora a miserabilidade brasileira seja maior. Afinal, em 2017, a população chilena era de apenas 18,5 milhões de habitantes contra 209,3 milhões de brasileiros. Quanto mais gente, mais problemas a serem resolvidos e maiores os desafios.

Um quesito que nos coloca em séria desvantagem é o da educação. Em 2013, a taxa de alfabetização chilena era de 98,6% contra 91,3% no Brasil. No ranking da qualidade de ensino divulgado em maio deste ano pela Pearson International, o Chile aparece em 33º lugar entre 40 países, enquanto o Brasil ocupa a penúltima posição, atrás apenas da Indonésia.

Uma coisa é certa: o Chile pós-Pinochet mais acertou do que errou. Por outro lado, a História é feita de fluxos e refluxos. Nesse contexto, as revoltas populares são cíclicas e impulsionam as grandes transformações. A democracia garante a alternância pacífica de poder.

De qualquer modo, espera-se que os chilenos possam superar a crise atual o quanto antes. Se há riscos de o quadro se agravar e contaminar outros países, como desejam os globalistas, só o tempo dirá. Seja como for, comparar a realidade de povos tão diferentes pode resultar em equívocos e decepções.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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