07 Nov 2019 | domtotal.com

A gargalhada do Coringa

Trata-se de um filme que faz pensar, coisa rara nos tempos atuais

Joaquin Phoenix mergulha fundo no personagem, dando-lhe consistência psicológica
Joaquin Phoenix mergulha fundo no personagem, dando-lhe consistência psicológica (Divulgação)

Por Jorge Fernando dos Santos

Um dos filmes mais polêmicos do ano tem tudo para conquistar o Oscar. Trata-se de Joker (Coringa), dirigido por Todd Phillips e recomendado para 16 categorias do prêmio pela Warner Bros. No papel principal, Joaquin Phoenix se supera no melhor desempenho de sua carreira.

O personagem já foi interpretado por vários atores, desde o canastrão Cesar Romero, na série de tevê, até os geniais Jack Nicholson e Heath Ledger – até agora considerado o melhor. Sem sombra de dúvidas, pode-se dizer que Joaquin Phoenix supera todos eles.

Recordista de bilheteria, o novo Coringa tem desagradado a esquerda e a direita, o que é muito bom. De um lado, por atropelar paradigmas do politicamente correto. De outro, pela carga de violência e a suposta tentativa de justificá-la. Na verdade, trata-se de um filme que faz pensar, coisa rara nos tempos atuais.

O que muitos não percebem é que Joker transforma um personagem raso das HQs num ser humano complexo, de carne e osso (nesse caso, mais osso do que carne, pois o ator emagreceu vários quilos para fazer o papel). Tudo isso sem contrariar a linha mestra dos criadores do Batman: Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane.

No filme, aliás, Bruce Wayne é apenas um menino que nem desconfia do próprio destino. Nesse ponto, há que se considerar que Batman é o mais burguês e improvável dos super-heróis. Um milionário que se fantasia de morcego para combater o crime numa Gotham City caótica e convulsionada.  

Incômodo detalhe

Sem dúvida, Joaquin Phoenix mergulha fundo no personagem, dando-lhe consistência psicológica. O ator desconstrói um vilão caricato e pouco verossímil. Na sua interpretação, Coringa adquire personalidade para além dos clichês. De certa forma, o novo palhaço tira a inocência da plateia, habituada a ver os filmes do Batman como mero entretenimento.

O ator deve ter ensaiado muitas vezes, antes de entrar no set de filmagem. Sua expressão corporal é tão caprichada que chega a provocar gastura nos espectadores. O sofrimento por trás da gargalhada e dos chistes do protagonista comovem até mesmo o lanterninha do cinema.

O coadjuvante Robert Di Niro marca presença ao interpretar um típico apresentador de talk show – desses idiotas que usam entrevistados como escada para suas piadas nem sempre engraçadas. Há que se destacar o excelente roteiro, a montagem, a trilha e os efeitos visuais e sonoros da produção.

Pena o tom moralista de quem critica gratuitamente a violência do filme. Violência contextualizada, diga-se de passagem, pois resulta do desespero existencial de um homem frágil, doente mental, absolutamente só e infeliz. Um tipo que costuma vagar pelas ruas, invisíveis ao olhar das pessoas “normais”.

Pessoas que nunca se incomodam com os videogames e filmes belicistas, de violência gratuita, apologistas das armas e do crime sem castigo. O drama do novo Coringa, pelo contrário, serve de alerta para a sociedade hipócrita e alienada, na qual o indivíduo não passa de um incômodo detalhe.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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