08 Nov 2019 | domtotal.com

Não é maldade, é interesse de classe!

Quem é o mercado? Uma entidade discursiva?

'Posto Ipiranga'. Como se a economia se separasse da política
'Posto Ipiranga'. Como se a economia se separasse da política (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Por Marcel Farah

Esta semana o governo apresentou mais um pacote de maldades, o pacote pós-previdência? Na realidade não se trata de maldade, é apenas a execução sumária do programa eleito em 2018.

Este programa, lógico, não foi vocalizado pelo candidato vencedor das eleições, pois nem mesmo ir a debates ele ia. Mas foi denunciado pela oposição e por toda a esquerda. Foi associado à figura do liberal ministro da economia precocemente escolhido pela extrema-direita, o tal “posto Ipiranga”. Como se a economia se separasse da política.

As medidas apresentadas buscam reduzir o estado ao mínimo possível, diminuindo o poder de intervenção estatal na economia, abrindo espaço para o mercado ocupar diversos setores, desvinculando recursos orçamentários, o que fragiliza políticas públicas essenciais e encarece os serviços em geral.

No mesmo sentido, aproveita-se da demonização dos servidores públicos para que estes paguem parte substancial dos cortes. Ao reduzir salários ou proibir concursos acaba retraindo ainda mais a economia, pois retrai a demanda. Mas ignora que a economia esteja conectada à política.

Enfim, sem entrar no mérito das medidas em si, pode-se dizer que caminham para atender interesses do mercado, aprofundando medidas neoliberais e consequentemente concentradoras de renda.

Quem é o mercado? Uma entidade discursiva? Por certo. Trata-se na realidade das classes que detém a propriedade privada, os donos, patrões, banqueiros, credores da dívida, multinacionais, a irmandade do petróleo, fazendeiros etc. Se encontrou nesse meio?

O mercado puro pode ser mesmo o modelo de desenvolvimento econômico mais eficiente, mas sem a intervenção estatal as opções derivadas do ambiente de concorrência e mercantilização irrestrita tendem a concentrar renda. Nenhum investidor investe, a não ser para receber mais valor ao final, e este mais valor não tem compromisso com o bem estar, pois, para garantir o bem estar hoje nem sempre se garantirá retornos financeiros. O papel do estado historicamente foi de balancear este processo.

Os três projetos de PEC apresentados realizam as medidas dos sonhos do grande empresariado e da mídia empresarial, que tenta se separar de Bolsonaro, mas não de seu ministro da economia, Paulo Guedes.

Pego emprestada analise do colega Robson Sávio Reis Souza[1], para dizer que a mídia corporativa depende da reprodução do discurso de polarização para justificar seu lado. Assim, apesar de criticarem o presidente por suas barbaridades, como apoiam as medidas neoliberais, mantêm apoio ao rumo geral que o país vem assumindo.

Ao final do processo, se continuamos no mesmo sentido, poderemos até derrubar Bolsonaro, mas não o programa político, ou seja, apesar de polir a aparência, manteremos a mesma essência e com ela a crescente desigualdade, a desestruturação do estado, o aprofundamento da miséria e do sofrimento humano. Afinal, não se trata de maldade, mas sim do interesse daqueles para quem este governo governa.

[1]Disponível em https://domtotal.com/blogs/robson/841/2019/11/04/as-falacias-dos-dois-lados-e-da-polarizacao-politica/

Marcel Farah
Educador Popular
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas