08 Nov 2019 | domtotal.com

Sua vida vale a unidade ou é por quilo?

O sacrifício da própria vida ao mercado virou a religião da contemporaneidade

Nas redes sociais tem prevalecido o discurso meritocrático que chega ao extremo de culpabilizar a pessoa pela própria pobreza
Nas redes sociais tem prevalecido o discurso meritocrático que chega ao extremo de culpabilizar a pessoa pela própria pobreza (Carlos Muza/ Unsplash)

Por Gilmar Pereira

A pessoa descreve que o curso é 100% online como se fosse vantagem. O chamariz é não precisar sair de casa. Certo! Gosto de onde moro. Lá é o lugar do meu descanso, onde partilho afeto. Às vezes lá trabalho e estudo. Contudo, não me parece saudável a cultura da extrema "privatização" da vida. Parece que fobia social virou valor. "Você não precisa transitar, nem interagir com nada ou ninguém" – talvez dissesse a propaganda do curso.

Sei lá! Minhas brigas com o ônibus me dão visão de mobilidade urbana; as viagens ao trabalho  me dão perspectivas diferentes da cidade e da humanidade na pequena amostragem do grupo de passageiros. No fundo, gosto de ver gente, de me irritar com elas, de cansar e sentir que sou corpo. Tem a ver com meu temperamento e minha necessidade de interação social e com o espaço.

É claro que fazer um curso em casa é cômodo e menos exaustivo. Tem seus aspectos positivos. Contudo, para alguns será ocasião de se distrair nas tarefas menores, esquecendo-se de estudar. Outros perderão a dimensão de lar da casa e a transformarão em mero escritório. Talvez esse seja meu medo, da lógica do mercado invadir meu espaço de intimidade, de eu ter que viver correndo para atender à demanda de qualificação. Tudo isso, claro, para ter algum conforto e qualidade de vida.

Acontece que essa mesma qualidade pode se perder na tentativa de alcançá-la. Na ânsia por viver bem, tendo a melhora econômica como caminho, corre-se o risco de trocar os fins pelos meios. Desse modo, a vida de muita gente tem passado sem que cada qual possa se dar conta porque levou a vida trabalhando. Vale aqui a indagação bíblica: "De que adianta ganhar o mundo inteiro e vir a perder a própria vida?".

O sacrifício da própria vida ao mercado virou a religião da contemporaneidade, que tem num futuro de estabilidade e sucesso o seu céu. O sentimento de arrependimento pelo pecado, por não corresponder ao chamado de Deus, foi substituído pela culpa de não trabalhar e estudar exaustivamente. A pobreza virou responsabilidade de quem não se esforçou suficientemente, não das relações sociais injustas. Mea culpa, mea maxima culpa! Até  mesmo a ascese não visa mais a disposição do espírito, mas adquirir uma imagem física para melhor aceitação social. O corpo é mais que disciplinado, é domesticado para ser passivo à moda e à estética mercadológicas. Não seja crítico numa espiritualidade que lhe mova, faça mindfulness.

O problema não é o curso ser 100% online. O problema é esse ser o grande atrativo e diferencial, dito com estardalhaço como se fosse a melhor coisa do mundo para todos. É bom porque representa redução de custos para quem oferece e para quem faz.  É bom porque é cômodo. Mas nesse encantamento todo, tem uma lógica perigosa que tem se tornado cultura: Time is money! Agora, contudo, acrescenta-se: Live for money! Como consequência, a vida passa a não ter valor em si mesma, mas apenas na produtividade econômica: a pessoa se tornou produto.

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
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