14 Nov 2019 | domtotal.com

A chave de Pandora

O que dizer dos milhares de outros beneficiários da decisão do STF?

Lula responde a mais oito processos e o fato de estar nas ruas não significa que esteja livre
Lula responde a mais oito processos e o fato de estar nas ruas não significa que esteja livre (Gibran Mendes / CUT Paraná)

Por Jorge Fernando dos Santos

A decisão do STF de revogar a prisão em 2ª instância foi a chave de Pandora. Com ela, abriu-se a caixa dos horrores. Lula, o mais ilustre dos beneficiados pelo placar de 6X5 na votação da semana passada, é na verdade a rolha da garrafa. Atrás dele borbulha uma longa fila de delinquentes a caminho das ruas.

Trata-se de uma tragédia anunciada. Mesmo decidindo o contrário anteriormente, a suprema corte presidida por Dias Toffoli recuou do veredito anterior. O objeto do julgamento é de fato polêmico. Embora muitos considerem constitucional a nova decisão, o placar foi apertado e precisou do voto de Minerva do petista que nunca foi juiz.

Como era esperado, Lula saiu da cela espumando impropérios contra o presidente Jair Bolsonaro, seu governo e o ministro da Justiça, Sérgio Moro. Afinal, ele é craque em identificar paradigmas, como fez durante anos com o amigo FHC. Faz parte do seu estilo perverso desviar o foco das atenções.

Antonio Palocci

A postura de Lula mostra que foram quase dois anos perdidos como hóspede da PF, em Curitiba. Ele não meditou sobre seus erros e suas práticas criminosas. Mesmo condenado em dois processos e em três instâncias, e apesar das denúncias do seu ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, o ex-presidente insiste no vitimismo e nas bravatas.

Bem fez Sérgio Moro em não descer ao nível das provocações. Já o presidente da República demorou a comentar a decisão do STF, o que, aliás, é explicável. Seu filho 01, senador Flávio Bolsonaro, foi blindado nas investigações do COAF. Em troca do favor, André Mendonça, amigo de Toffoli, foi nomeado advogado-geral da União e pode chegar ao Supremo.

A blindagem dificulta esclarecer o caso Fabrício Queiroz e as possíveis ligações com milicianos. Dessa vez, a rolha da garrafa é o primogênito do clã. Atrás dele borbulham milhares de suspeitos de crimes contra a Receita Federal, inclusive as esposas de Toffoli e Gilmar Mendes.

O sentido inverso

Numa publicação no Facebook, feita no domingo (9/11), o jornalista Ramiro Batista afirma ter “farejado” no ano passado a dobradinha entre Toffoli e Gilmar para impedir a prisão em 2ª instância. Na ocasião, ele escreveu:

“Em sentido inverso, nada e ninguém me tiram da cabeça que o jovem lulista que serviu a José Dirceu e odiava Dilma, uma vez transformado ministro do STF, estabeleceu as pontes com o mais influente dos ministros do Judiciário, Gilmar Mendes, e criou as bases para mudar tudo, inclusive soltar Lula caso ele venha a ser preso.”

Ramiro está convicto de que Gilmar nunca superou o arrependimento de ter vetado a nomeação de Lula para a Casa Civil de Dilma. O que ele não supõe é que a mudança de postura do ministro mais odiado do Supremo pode ter sido motivada pelo risco de prisão dos amigos do PSDB. O próximo passado dos “guardiões da Constituição” será rasgar a lei da ficha limpa.

Lula responde a mais oito processos e o fato de estar nas ruas não significa que esteja livre. Sua soltura pode até estimular o reagrupamento de bolsonaristas que andavam dispersos. Mas o que dizer dos milhares de outros beneficiários da decisão do STF? São políticos e empresários corruptos, sonegadores, traficantes, estupradores, pedófilos e até assassinos de crianças, como Alexandre Nardoni. Tutti buona gente!

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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