28 Nov 2019 | domtotal.com

A ditadura da felicidade

A dor da alma é um traço exclusivamente humano e sua origem está no vazio existencial

A negação da infelicidade é uma das molas que impulsionam o consumo na sociedade contemporânea
A negação da infelicidade é uma das molas que impulsionam o consumo na sociedade contemporânea (Pixabay)

Por Jorge Fernando dos Santos

“A felicidade não é deste mundo”, diz o Eclesiastes. No entanto, a cultura moderna insiste em negar ao homem o direito de sofrer. Não falo do sofrimento físico, da dor decorrente de uma fratura ou de um ferimento na carne, mas da dor metafísica ou, simplesmente, a infelicidade de se saber mortal.

O marketing e a propaganda têm no prazer um instrumento de trabalho. Tratam a vida como se fosse um parque de diversões no qual não há espaço para o sofrimento. “Enjoy”, diz o anúncio da Coca-Cola. Deve ser por isso que se fala tanto em sexo, inclusive associado a outras formas de prazer, como a bebida, a culinária, o turismo ou a simples aquisição de um bem material. Estamos na era do hedonismo e da farsa.

Os mais velhos devem se lembrar daquele anúncio de jeans que comparava a felicidade a uma calça velha, azul e desbotada. Contudo, a felicidade nem sempre decorre do prazer imediato. Este, em excesso, pode surtir efeito contrário, aumentando a sensação de vazio. Nesse caso, quem desbota é a própria felicidade, transformada em tédio existencial.

A publicidade sabe que o desejo resulta da escassez. A Bolsa de Valores prova isso. Quanto mais disponível no mercado, menor o preço da mercadoria – seja ela qual for. Se tropeçássemos em pepitas de ouro, o lastro das moedas teria que ser mudado. Se a felicidade é rara, associá-la a bens de consumo pode aumentar as vendas. O sistema quer todo mundo esbanjando alegria, o que parece um paradoxo.

A reação dos românticos

O romantismo foi uma reação de artistas e intelectuais contra a Modernidade e suas promessas de um mundo perfeito. Os românticos, do ponto de vista filosófico, viam com desconfiança os avanços da ciência e da técnica. A vida desregrada seria um comportamento instintivo diante dos riscos da perfeição. Isso explica a melancólica figura do poeta bêbado, sifilítico ou tuberculoso.

Ecoando o ensinamento bíblico, o romântico brega Odair José escreveu numa de suas canções que não existe felicidade, e sim momentos felizes. Isso significa que é impossível ser feliz o tempo todo. Quem passa a vida rindo de tudo é na verdade um débil mental ou, como o Coringa do cinema, um pobre infeliz que esconde a tristeza atrás da máscara do riso.

No entanto, em tempos de Black Friday e de redes sociais, todo mundo é obrigado a sorrir. Ou, como diz um velho samba de Geraldo Vandré, “ninguém pode mais sofrer”. Quem postar uma foto triste no Instagram certamente correrá o risco de perder metade dos seguidores.

Se fizer o mesmo no Facebook, os amigos serão tentados a dizer que a vida é bela, Deus é bom e não há motivos para tristeza: “Pior seria viver isolado no interior da África ou no sertão do Piauí”, pobre Piauí! Mas ser infeliz não significa ser desagradável, do tipo vitimista, que só sabe reclamar. Não há nisso nenhuma vantagem. Só vale ser infeliz com resignação e galhardia.

Depressão é um sofisma

O escritor e psiquiatra britânico Theodore Dalrymple aprendeu na prática que a sociedade moderna transformou a infelicidade em depressão. Um sofisma chique para expressar o óbvio. Dessa forma, basta tomar um remédio para aplacar a angústia de viver. Eis a razão do aumento no consumo de calmantes e antidepressivos. A felicidade é vendida como placebo nas farmácias e drogarias.

A negação da infelicidade é, portanto, uma das molas que impulsionam o consumo na sociedade contemporânea. Quantas vezes somos tentados a trocar de celular ou a comprar um novo par de sapatos em momentos de tristeza? O cartão de crédito diminui a dor de não ter repostas para as grandes perguntas. Deve ser por isso que boa parte das pessoas se endividam comprando supérfluos.

Como nos ensina o filósofo, teólogo e poeta dinamarquês Soren Kierkegaard, a angústia é um dos ingredientes do nosso espírito. Não saber aceitá-la como algo natural é o que geralmente nos conduz à verdadeira infelicidade. Ou, como deduzira Freud, “o homem é o ser da falta”. A dor da alma é um traço exclusivamente humano e sua origem está no vazio existencial.  

Contudo, a pressão social para sermos felizes é tão forte que, na maioria das vezes, admitir-se infeliz é experimentar a sensação de vergonha e de culpa diante de tantos que têm tão pouco e que, no entanto, se dizem felizes. Mas não nos deixemos enganar pelas aparências. No fundo no fundo, a maioria mente o tempo todo para ficar bem na fita.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual), Prêmio Guimarães Rosa 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio APCA 2015; e A Turma da Savassi (Miguilim).
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